Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Conjuntura e Estratégias

Perfil:Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE - Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE.

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Contextos, campanhas e cisnes negros

Adriano Oliveirater, 01/10/2013 - 10:47

Pesquisas eleitorais servem para a construção de especulações eleitorais. Muitas vezes, tais especulações representam vereditos. Modelos estatísticos, tão costumeiramente utilizados pela Ciência Política em trabalhos acadêmicos, buscam explicar os resultados das eleições após elas findarem. As pesquisas que sugerem vereditos e os modelos estatísticos contribuem fracamente para tornar inteligível o processo de aperfeiçoamento da compreensão do comportamento do eleitor.

As pesquisas eleitorais, em particular a variável intenção de voto, sugere a situação do competidor em dado contexto social. Os modelos estatísticos utilizados em pesquisas acadêmicas sugerem quais as variáveis que motivaram as escolhas dos eleitores. Tanto as pesquisas como os modelos pecam ao não considerar três aspectos essenciais na busca da compreensão das escolhas do eleitor: 1) O contexto em que o eleitor está inserido; 2) As campanhas eleitorais; 3) Os cisnes negros eleitorais.

O contexto social em que o eleitor está imerso é uma variável que pode vir a condicionar a escolha do eleitor. Portanto, se os eventos presentes no contexto e as suas características não forem consideradas, a intenção de votoé meramente um dado desprovido de qualquer sentido. Deste modo, a análise desta intenção precisa estar acompanhada da compreensão do contexto, pois assim ela adquire significado. Além disto, quando se especula quanto às características e os eventos que poderão estar presentes em contexto futuro, é possível construir cenários quanto ao desempenho dos candidatos.

As campanhas eleitorais são variáveis intervenientes na competição entre candidatos. Neste sentido, elas interferem nas escolhas dos eleitores. Tal afirmação é comprovada ao constatar-se a diminuição gradativa dos eleitores indecisos e dos votos brancos e nulos em virtude da aproximação do dia da eleição. Os eleitores órfãos de candidatos hoje podem vir a escolher um competidor em virtude da interferência da campanha eleitoral. Outros indicadores importantes para verificar a influência das campanhas são: 1) Aumento dos porcentuais dos candidatos na resposta espontânea do eleitor quando ele é provocado a expressar a sua opção eleitoral; 2) Aumento do porcentual do nível de conhecimento dos candidatos por parte dos eleitores. 

Os cisnes negros eleitorais são eventos não previsíveis que ocorrem nos contextos sociais e que têm força para mudar as escolhas dos eleitores. Estes cisnes podem surgir fortuitamente ou ser construídos intencionalmente por um competidor no decorrer da disputa eleitoral. Denúncias contra algum candidato, temas morais que geram polêmicas eleitorais e estratégia utilizada por dado competidor que cause forte impacto na mente dos eleitores. Estes são exemplos de cisnes negros eleitorais que são verificados costumeiramente em variadas eleições.

Em recente pesquisa do IBOPE (26/09/2013), a presidenta Dilma Rousseff obtém 38% de intenções de voto; a ex-senadora Marina Silva conquista 16%; o senador Aécio Neves obtém 11%; e o governador Eduardo Campos, conquista 4% de intenções de voto. Tais dados refletem a força eleitoral do incumbente, o qual por assim ser, já utiliza as ferramentas das campanhas eleitorais. Os dados refletem o contexto em que a disputa ocorre: a presidente Dilma utilizou de ferramentas de campanha para anunciar ações que provocaram o eleitor; ausência de eventos econômicos trágicos. Por fim, os dados refletem a ausência de cisnes negros.


PSB: voz, saída e lealdade

Adriano Oliveiraqui, 19/09/2013 - 11:57

A decisão do governador Eduardo Campos em não mais participar do governo Dilma Rousseff sugere rupturas nas tradicionais alianças partidárias e pode inaugurar um novo ciclo na dinâmica eleitoral. Desde o inicio da era petista, o PSB esteve ao lado do PT e contra o PSDB. Na era Lula, o PSB não ofertou candidato à presidência. E na disputa com Dilma fez o mesmo. As eleições presidenciais nas eras petistas foram caracterizadas pela disputa entre PT e PSDB.

A saída do PSB do governo do PT não significa que Eduardo Campos será candidato a presidente da República em 2014. Mas representa um obstáculo superado pelo PSB para que Eduardo Campos seja candidato competitivo a presidente. Antes da entrega dos cargos, as principais lideranças do PSB utilizavam da voz para mandar recados para o governo Dilma, os quais não tinham impacto entre os eleitores. Na era dos recados, não existia estratégia eficaz que possibilitasse o crescimento eleitoral de Eduardo Campos.

Com a saída do governo, o PSB terá condições de encontrar outras estratégias. Recados, os quais eram costumeiramente enviados, precisam ser substituídos por estratégias discursivas que mostrem que Eduardo Campos representa alternativa ao governo  do PT. Para tanto, faz-se necessário que Eduardo apresente propostas para o Brasil. Tais propostas não devem representar rupturas com as eras FHC, Lula e Dilma, já que os eleitores reconhecem os benefícios destes governos.

A construção de propostas alternativas ao PT será o principal desafio do PSB, em razão de que desde a era FHC, a agenda governamental é comum aos principais atores da oposição e do governo. Eduardo ou qualquer outro candidato precisará ofertar propostas em forma de gatilhos emocionais que provoquem os eleitores a acreditarem que existe alternativa ao PT.

Desafios precisam ser superados para a consolidação da candidatura a presidente de Eduardo Campos. A superação dos desafios condiciona as chances de sucesso eleitoral do governador de Pernambuco nos âmbitos local e nacional. Atrair partidos para o projeto presidencial do PSB é um desafio. Neste instante, o PPS aparenta ser o partido mais próximo do PSB. O DEM flutua entre PSDB e PSB, em razão dos interesses estaduais. Outros desafios para o PSB, os quais representam riscos, é a recuperação da popularidade de Dilma e a não candidatura presidencial de Marina.

A recuperação da popularidade de Dilma enfraquece a candidatura de Eduardo Campos. Inclusive, se tal evento ocorrer e for pujante, Campos poderá retomar a aliança com o PT na disputa presidencial. A não candidatura de Marina contribui para o sucesso eleitoral de Dilma no 1° turno. A ausência de Marina da disputa e a recuperação da popularidade da presidenta antes da campanha eleitoral fortalecem as chances de vitória de Dilma sem a necessidade de 2° turno.

Em Pernambuco, Eduardo Campos, caso seja candidato a presidente, terá um desafio: conseguir fazer o seu sucessor. A sua candidatura a presidente cria condições para que o PT apoie o senador  Armando Monteiro ao governo de Pernambuco. Se esta possibilidade se consolidar, Eduardo terá que enfrentar o PT em Pernambuco, ou melhor: Lula/Dilma. Tal enfrentamento é uma ameaça às hegemonias política e eleitoral do PSB, pois a simbiose Lula/Dilma ainda provoca reações emocionais positivas em grande parte dos eleitores pernambucanos.

O livro “Voz, saída e lealdade” do economista Albert Hirschman serve de inspiração para a compreensão do passado, do presente e do futuro do PSB. A aliança (lealdade) caracterizou a relação entre PT e PSB nos últimos anos. Com o início do governo Dilma, membros do PSB usaram a voz para combatê-la e com o objetivo de conquistar eleitores. Em razão de conflitos, o PSB (saída) desembarcou do governo Dilma. A expectativa é se, a partir deste desembarque, Eduardo Campos conquistará eleitores suficientes que lhe levem ao segundo turno da disputa presidencial; e se conseguirá quebrar a lealdade de parte dos eleitores pernambucanos com Lula e Dilma.  


Eleitores acomodados

Adriano Oliveirasex, 13/09/2013 - 08:49

A variável intenção de voto não é a mais importante numa pesquisa. Ela apenas sugere dada realidade. A variável intenção de voto adquire força para explicar a realidade quando interpretada numa série histórica e outras variáveis são consideradas, como, por exemplo, nível de conhecimento dos candidatos, os sentimentos dos eleitores para com os competidores e as expectativas do eleitorado.

Costumeiramente, competidores desejam saber se estão na frente. Para muitos deles, a pesquisa só tem uma finalidade: mostrar quem lidera. Tal atitude e desejo conduzem os candidatos a estratégias equivocadas que podem possibilitar a derrota eleitoral. Os competidores também, por vezes, desprezam a interpretação da conjuntura. É na conjuntura, em razão das ações dos atores, as quais são provocadas por incentivos variados, que a intenção de voto é produzida. Portanto, a variável intenção de voto reflete a opinião do eleitor sobre dado candidato numa específica conjuntura.

Se a intenção de voto reflete a opinião do eleitor numa dada circunstância, é possível a construção de cenários eleitorais. Neste caso, vislumbrar qual será o desempenho do candidato na próxima pesquisa, a qual ocorrerá em dada conjuntura. Portanto, as indagações presentes na pesquisa eleitoral devem buscar compreender o comportamento do eleitor diante dos eventos da ocasião. Além disto, pesquisas eleitorais podem buscar identificar as expectativas dos indivíduos quanto ao futuro, ou seja, com os eventos que virão.

A pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Transportes e o instituto de pesquisa MDA no período de 31/08 a 04/09/2013 revela a expectativa do eleitorado brasileiro e sugere hipóteses de como ele irá se comportar em 2014. Em junho, 39,6% dos eleitores têm a expectativa de que “a situação do emprego vai melhorar nos próximos seis meses”. Em julho, a expectativa é de 32%. Em agosto ocorre crescimento: 34,7% acreditam que a situação do emprego irá melhorar.    

Em junho, 44,5% dos eleitores consideram que a situação do emprego “irá continuar como está nos próximos seis meses”. Em julho e agosto, os porcentuais foram de 45,4% e 46,5%, respectivamente. No que condiz a melhora da renda, 35,8% dos eleitores afirmaram em junho que “ela irá melhorar nos próximos seis meses”. Nos meses de julho e agosto, os porcentuais foram de 29,6% e 36%. No mês de junho, 51,9% afirmaram que “a renda ficará igual nos próximos seis meses”. E em julho e agosto, 58,8% e 53,3% afirmaram que a renda será semelhante nos seis meses vindouros.  

Para 16% dos eleitores, no mês de agosto, o emprego “piorará nos próximos seis meses”. No mês de junho e julho os porcentuais eram: 11,5% e 20,4%. Para 7,8% dos eleitores, no mês de agosto, a renda “vai diminuir nos próximos seis meses”. Nos meses de junho e julho os porcentuais eram: 8,5% e 8,8%.   

O que me desperta a atenção é a expectativa dos eleitores. Os porcentuais mais altos são encontrados na categoria “vai ficar igual”. Neste sentido, os dados sugerem que parte do eleitorado não tem expectativas de crescimento da renda e do emprego. E é nesta conjuntura com eleitores acomodados que Dilma lidera as pesquisas de intenções de voto. Deste modo, considero que os candidatos da oposição precisam criar estratégias que despertem parte dos eleitores para que eles saiam da acomodação e consigam acreditar que algum candidato da oposição tem condições de fazer algo mais no âmbito econômico. Mas isto é possível?    


Pemedebismo

Adriano Oliveiraqui, 05/09/2013 - 14:20

As negociações políticas visando às eleições de 2014 mostram agremiações partidárias procurando portos seguros. Costumeiramente, as notícias advindas da imprensa revelam partidos em negociação e chapas sendo previamente formadas. Porém, estas notícias não revelam claramente o que está por trás da negociação: a expectativa de podermomentânea dos partidos políticos.

Expectativa de poder momentânea significa conjuntos de eventos presentes na agenda midiática que sugerem caminhos eleitorais a serem trilhados pelos partidos políticos na disputa presidencial de 2014. As seguintes manchetes encontradas na imprensa sugerem a expectativa de poder momentânea das agremiações partidárias: “PMDB ameaça não apoiar Dilma”, “PDT não garante apoio à Dilma”, “PSB flerta com o PSDB”.  Estas manchetes não têm significados concretos. Elas representam ruídos que são construídos intencionalmente pelos atores políticos.

O significado concreto da negociação política passa a existir, entretanto, quando consideramos na interpretação das manchetes midiáticas a variável expectativa de poder. Neste caso, a premissa empírica é: governos bem avaliados exercem força centrípeta junto aos partidos. E governos mal avaliados exercem força centrifuga. Se governos estão bem avaliados, mais partidos lhes ofertarão apoios. E, por consequência, alianças eleitorais surgem. Entretanto, diante da má avaliação do governo, partidos tentam construir novas opções de alianças.

São as pesquisas eleitorais que conduzem as ações dos partidos. São elas que ditam o ritmo pendular das verbalizações dos atores políticos quanto às possíveis alianças. Em dado instante, diante de uma pesquisa, o partido “A” declara apoio incondicional ao governo. Mas, em razão do surgimento de outra pesquisa, após três meses da primeira divulgada, o partido “A” revela possível apoio à oposição. As declarações se repetem a cada divulgação de pesquisa e findam quando da realização das convenções partidárias.  

No momento, o contexto é caracterizado pelas declarações pendulares de apoios a três partidos: PT, PSDB e PSB. Porém, a rivalidade PT versus PSDB presente nas eleições presidenciais desde 1994, poderá permanecer na disputa de 2014. Na última eleição, o PV, através da candidatura de Marina Silva, quase conseguiu romper com tal dicotomia. No momento, existe a perspectiva de que o PSB quebre com tal dicotomia.

Além da tradicional disputa entre PT versus PSDB, observo a existência do pemedebismo. Sob influencia do filósofo Marcos Nobre, autor do livro “Choque de democracia: razões da revolta” (Companhia das Letras, 2013), afirmo que os partidos pemedebistas são aqueles que gravitam historicamente no poder. Neste caso, eles não apresentam candidaturas presidenciais, mas ofertam apoios motivados pela expectativa de poder, e com isto conquistam espaços no governo.

A expectativa de poder momentânea do PSB sugere duas possibilidades neste instante: 1) Atrelamento a Dilma; 2) Candidatura presidencial. Caso a primeira possibilidade se concretize, o PSB será incluído no universo de partidos pemedebistas. O partido de Marina (Rede), caso seja criado, ofertará a sua candidatura. Neste caso, ele não será inserido no universo pemedebista


O voto econômico e o Mais Médicos

Adriano Oliveiraqui, 29/08/2013 - 12:04

A sabedoria estratégica precisa ser a característica principal dos atores políticos. Tal sabedoria corresponde à capacidade do ator político de prognosticar cenários a partir da compreensão adequada do contexto. Inerentes aos contextos estão presentes mecanismos interacionais entre competidores e eleitores que revelam as suas respectivas intenções e desejos.

A explicação por mecanismos propostas pelo filósofo Jon Elster em variadas das suas obras e a ciência conteúdistica sugerida pelo sociólogo Luis de Gusmão em seu fantástico livro “O fetichismo do conceito” podem ser utilizadas para a compreensão das estratégias adotadas pela presidenta Dilma Rousseff em busca da recuperação da sua popularidade. Segundo Elster, relações causais são encontradas nos contextos sociais. Neste sentido, eleitores são incentivados pelos competidores a fazerem escolhas. Para Gusmão, o qual também é adepto da explicação por mecanismos, os eventos que estão presentes no contexto social podem vir a ofertar mecanismos caso o conteúdo da realidade seja intensamente analisado.   

A tese recorrente entre acadêmicos, estrategistas e competidores é que o estado da economia importa para explicar o comportamento dos eleitores. Para eles, o mecanismo observado é: se a economia vai bem, eleitores tendem a votar na reeleição do presidente da República. Esta tese é concebida em virtude do sucesso eleitoral de FHC, Lula e Dilma. Mas, caso façamos uma análise parcimoniosa, constataremos que a economia importa, mas ela não oferta explicação satisfatória para a compreensão do comportamento do eleitor quando a consideramos de modo solitário.

O conjunto de variáveis explica o comportamento do eleitor. O voto econômico teve influência na eleição de FHC em 1994 – Mecanismo 1. Mas em 1998, outra variável estava presente, qual seja: o desejo de continuidade (Mecanismo 1) e o reconhecimento de que FHC tinha condições de manter o Brasil no rumo certo –Mecanismo 2. Em 2002, Lula foi eleito em razão do desgaste da economia (Mecanismo 1), mas ele precisou mudar. Neste caso, ele convenceu os eleitores a confiarem nele – Mecanismo 2. O ex-presidente Lula foi reeleito em virtude do bem-estar econômico da população – Mecanismo 1. Porém, a variável confiança no presidente Lula também explica o seu sucesso eleitoral – Mecanismo 2. Dilma foi eleita em virtude de representar a continuidade das conquistas econômicas (Mecanismo 1) e sociais (Mecanismo 2) dos eleitores na era Lula. E por conta o lulismo (Mecanismo 3).   

Mesmo diante do pífio crescimento econômico de 2011 e repiques inflacionários, a presidenta Dilma ostentava, até junho de 2013, alta aprovação e liderava com folga a disputa presidencial. Após as manifestações, a sua popularidade despencou, mas recentes pesquisas mostram a sua recuperação. As estimativas de crescimento econômico para 2013 e 2014 não são promissoras quando comparamos com as taxas de crescimento alcançadas na era Lula. O Brasil deve crescer cerca de 2% em 2013 e 3,5% a 4% em 2014. Além da expectativa de alta inflacionária, a qual corrói a renda do consumidor.

Diante deste quadro, Dilma e os seus estrategistas mudaram, parcialmente, as estratégias da sua campanha. Em vez de mostrarem ao eleitor as conquistas econômicas da era Lula e do seu governo, eles optaram por criar o Programa Mais Médicos, o qual deverá ter forte impacto eleitoral. Este Programa tem condições de emocionar os eleitores.

O que será mostrado em 2014, caso não ocorra acidentes até lá, é que Dilma, diante da falta de médicos, tomou atitude com o objetivo de garantir atendimento médico à população brasileira. Sendo assim, a presidenta Dilma Rousseff usará o Programa Mais Médicos, caso ele seja bem sucedido, como “escudo” para os questionamentos da oposição no âmbito econômico.     


Ideias e agenda para 2014

Adriano Oliveiraqui, 22/08/2013 - 15:35

 

Jorge R. B. Tapia e Eduardo R. Gomes em brilhante texto – Ideias, interesses e mudanças institucionais (Revista Tempo Social, 2008) –  mostram o papel das ideias e dos interesses na trajetória política da sociedade. Os autores revelam que ideias são ofertadas para a sociedade através dos atores e estes são provocados por ela. Neste caso, existe uma intercambialidade de interesses de ambos os atores – opinião pública e protagonistas políticos – que possibilitam a produção de ideias. Influenciado pelos referidos autores, considero que as ideias representam e integram a agenda dos eleitores e dos atores políticos.

Na era FHC, a agenda governamental, a qual foi influenciada, em parte, pelos eleitores, era: controle da inflação, responsabilidade com os gastos públicos e privatização. A primeira agenda, inflação, foi uma demanda consciente dos eleitores. O longo período histórico em que a população brasileira teve a sua renda corroída pelo processo inflacionário possibilitou condições propícias para que a decisão política de FHC em criar o plano Real pudesse lhe dar as condições para ser eleito presidente da República.

Lula manteve a agenda de FHC. Entretanto, em razão do controle inflacionário, os eleitores, após a era FHC, estavam inquietos, à procura de novas soluções para novas demandas. A mobilidade social, a qual era representada pela possibilidade do aumento da renda e do poder do consumo, era a nova demanda. Lula, através do aumento do salário mínimo, da oferta de crédito e de um discurso incentivador que influenciou as mentes dos eleitores, em particular, os que tinham raras oportunidades de consumir, possibilitou que novos consumidores surgissem no Brasil.

A presidenta Dilma foi eleita presidenta como a principal representante das conquistas da era Lula. Entretanto, ao contrário do ex-presidente, Dilma optou por desprezar a agenda de FHC. Por consequência, permitiu a alta da inflação e o aumento dos gastos públicos. Ao descobrir que foi a agenda de FHC que permitiu a ampliação do consumo dos brasileiros, Dilma recuou e incorporou a agenda de FHC ao seu governo. Neste instante, Dilma tentar recuperar o tempo perdido na economia.

As manifestações realizadas em junho deste ano mostraram que os eleitores brasileiros têm novas demandas. Mas as manifestações foram vetores explicitamente fortes que fizeram com que os competidores de 2014 acordassem para as novas demandas dos eleitores. Antes das manifestações, pesquisas já revelavam os novos anseios dos eleitores. Deste modo, considero que os pilares das agendas de FHC e Lula não mais encantam os eleitores. Mas isto não significa que eles precisam ser abandonados.

Se as agendas antigas não mais encantam, quais são as novas agendas dos eleitores brasileiros? Partindo da premissa lógica de que as conquistas das eras FHC e Lula não podem ser perdidas, observo que as novas agendas são oferta de serviços públicos com qualidade (Incluso mobilidade), eficiência na gestão e transparência. As três agendas estão interligadas. A oferta de serviços públicos com qualidade demanda gestão eficiente e transparência.

Para as três agendas saírem do campo das ideias e se transformarem em realidade, os protagonistas políticos precisam ter coragem de propor e agir. Neste caso, a demagogia e o simplismo não devem nortear os discursos dos presidenciáveis. Eles precisam mostrar como irão fazer. Em virtude das campanhas não terem começado, os competidores que enfrentarão Dilma em 2014 ainda não tiveram oportunidade de mostrar como irão atender às novas solicitações. Mas lembro: tanto Dilma como os candidatos oposicionistas tenderão a apresentar agenda sugerida. Então, o que os candidatos devem fazer para despertar os eleitores, se as agendas serão semelhantes?  

 


Debates confusos

Adriano Oliveiraqua, 14/08/2013 - 19:04

As discussões pré-eleitorais são, por vezes, confusas. No caso, fogem da coerência e da plausibilidade. A dinâmica eleitoral é caracterizada pelos movimentos dos atores políticos. As ações dos atores ocorrem em estados de incerteza ou não. Quando da incerteza, é difícil para o estrategista prognosticar o que o ator fará. Mas quando da ausência da incerteza, os prognósticos são possíveis.

É possível que a incerteza na ação dos atores esteja no olhar ou na paixão do estrategista, pois este não consegue interpretar as condições em que o protagonista tomará a decisão, não vislumbra a ação de outros atores diante da consequência da ação de outro ator, e nem consegue vislumbrar a implicação ou a sequela da ação dos oponentes. Portanto, é possível identificar lógicas na dinâmica eleitoral e com isto, construir cenários e criar estratégias eficazes.

O debate recorrente desde o ano passado é quanto às ações de dois atores: Lula e Eduardo Campos. A especulação em torno do “volta Lula” inunda os ambientes midiáticos e políticos todas as vezes que pesquisas revelam queda da popularidade da presidenta Dilma ou a instabilidade na relação entre Executivo-Legislativo. Não desconsidero que Lula possa ser a opção do PT para as eleições de 2014. Porém, tal possibilidade é frágil em virtude de que a sua candidatura só surgiria caso Dilma não tivesse condições de recuperar popularidade. Em razão de Dilma ter condições de recuperar popularidade, não aprecio fortemente o cenário de que Lula será candidato em 2014.

Apesar da recente pesquisa eleitoral do Datafolha (09/08) mostrar que Lula venceria a eleição no primeiro turno, deve-se considerar que Lula como candidato terá que explicar ao eleitor quais as razões de Dilma não ser a candidata. Além disto, ainda não está claro se existe ou não desejo de mudança por parte do eleitor. Neste caso, outros atores políticos, ao serem apresentados ao eleitor, podem vir a representar tal desejo de mudança. E se assim ocorrer, Lula poderá perder a eleição.

Outro debate em vigor são as escolhas do governador Eduardo Campos. Após as eleições de 2010 apresentei quatro possibilidades para o governador em 2014: Possibilidade 1: Candidatura à presidente; Possibilidade 2: Candidatura a vice-presidente na chapa do PT; Possibilidade 3: Candidatura a vice-presidente na chapa do PSDB;Possibilidade 4: Candidatura ao Senado ou à Câmara Federal. As possibilidades 1 e 4 são, neste instante, as mais plausíveis. A possibilidade 2 é remota. E a possibilidade 3, é, neste momento, mais que remota.

O que impede a definição de Eduardo Campos? Como já frisei em outros artigos, é possível que exista relação entre aprovação do governador Eduardo em Pernambuco e a sua relação com Lula/Dilma. No instante em que esta relação for rompida, não se deve desconsiderar os seus efeitos negativos para o governador, principalmente se Dilma recuperar a sua popularidade.

Outro ponto: a candidatura presidencial de Eduardo poderá representar a formação da aliança PT/Armando Monteiro em Pernambuco. Se isto ocorrer, o candidato de Eduardo a governador não é favorito a vencer o pleito. A não candidatura de Eduardo a presidente poderá torná-lo refém do PT nacionalmente, embora ele mantenha condições propicias de eleger o seu sucessor em 2014.

Neste momento, as dúvidas de Eduardo Campos estão condicionadas a duas possibilidades: 1) Dilma recupera a popularidade que a torne favorita para vencer a disputa presidencial; 2) Dilma não recupera a popularidade. A possibilidade 1 enfraquece a candidatura de Eduardo. A possibilidade 2 a fortalece. Portanto, neste instante, não vislumbro ações dos atores que venham contrariar a lógica de qualquer protagonista político, qual seja: “Qual alternativa me conduz para a conquista ou manutenção do poder?”


Possíveis manifestações em 2014

Adriano Oliveiraqui, 08/08/2013 - 11:25

O ato de vislumbrar o futuro deve ser tarefa dos estrategistas que orientam os atores políticos para a conquista do poder. Os estrategistas não devem ter receio de prever quando estão diante de informações que contribuem para tal empreitada. Os atores políticos não precisam recear as previsões, pois elas apenas representam hipóteses quanto ao futuro. As previsões possibilitam a construção de cenários.

Pesquisa do IBOPE realizada entre os eleitores brasileiros em julho deste ano revela que 41% dos eleitores confiam nos governos da cidade onde moram e 41% declaram confiar no governo federal. Portanto, os eleitores desconfiam dos governos. Outros dados relevantes da pesquisa são: 1) 46% dos eleitores confiam no Poder Judiciário/Justiça; 2) 37% dos eleitores confiam nos sindicatos; 3) 32% confiam no sistema público de saúde; 4) 29% declaram confiar no Congresso Nacional; 5) E 25% afirmam que não confiam nos partidos políticos. Por outro lado, 90% dos entrevistados declaram confiar na família. Os dados apresentados mostram desconfiança por parte dos brasileiros com as instituições e forte confiança na família.

Considero que parte da sociedade brasileira está órfã institucionalmente, pois a confiança nas instituições é reduzida. A orfandade institucional significa que parte dos eleitores não acredita que as instituições são capazes de atenderem às suas demandas. Diante desta constatação, surge a seguinte indagação: é possível que manifestações semelhantes às de 2013 ocorram em 2014?

Os resultados da pesquisa do IBOPE sugerem que as manifestações podem ser consideradas vetores que proporcionaram a diminuição da confiança de parte dos brasileiros para com as instituições. Entretanto, ressalto que: com exceção dos itens presidência da República e Governo Federal, os outros indicadores mostrados já contavam com reduzida confiança. Portanto, o sentimento de orfandade institucional contribuiu para a inquietação social. Neste caso, os manifestantes indagaram e em seguida os brasileiros: o que os governos estão fazendo por mim? O que eles podem fazer para me ajudar?

Se manifestações intensas ocorreram em 2013, qual é a razão delas não ocorrerem novamente em 2014? Se a confiança nas instituições não aumentar e se os governos continuarem a não atender de modo satisfatório as demandas dos eleitores, vislumbro novas manifestações. 

Estudo do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN) realizado em fevereiro de 2011 na cidade do Recife revelou que 87,7% dos entrevistados eram favoráveis à realização da Copa do Mundo no Brasil. Quando indagados quanto à construção dos estádios para a Copa, os seguintes dados são encontrados: 1) 26,9% eram favoráveis à construção de estádios apenas com dinheiro público; 2) 30,1% afirmavam que os estádios deveriam ser construídos com recursos públicos e privados; 3) E 24,7% salientaram que os estádios deveriam ser construídos apenas com recursos privados.  Numa visão generalizante, considero que os dados apresentados já mostravam a insatisfação de parte dos eleitores brasileiros com os dispêndios do s governos com os estádios da Copa.  

As redes sociais e o jornalismo mostraram que os manifestantes reclamaram dos gastos com a Copa do Mundo. Se manifestantes reclamaram em 2013 dos gastos com a Copa, qual seria a razão deles não reclamarem em 2014? Então, aconselho aos variados atores políticos que participarão da competição eleitoral de 2014 que fiquem atentos à possibilidade de novas manifestações e a desenvolverem estratégias que anulem ou amenizem os efeitos delas em seus respectivos desempenhos eleitorais.


É possível o fim do petismo em 2014?

Adriano Oliveirater, 30/07/2013 - 11:39

Desde 2002, o PT está à frente da presidência da República. Em junho de 2005, em razão do escândalo do mensalão, o ciclo petista foi ameaçado. Nesta época, variados atores políticos prognosticaram a interrupção da era Lula e o retorno do PSDB ao poder. Porém, Lula conseguiu criar estratégias discursivas que possibilitaram a manutenção do PT na presidência da República. Lula é reeleito em 2006 e deixa o governo em 2010 com recorde de popularidade.

Dilma é eleita presidenta da República com o apoio de Lula em 2010. Por cerca de dois anos manteve a popularidade em alta num contexto de crescimento econômico baixo e ameaça inflacionária. Em junho de 2013, manifestações ocorridas em variadas capitais do Brasil possibilitaram, junto com outros fatores, a redução da popularidade de Dilma. Pesquisas recentes mostram que o governo Dilma tem em torno de 30% de aprovação.

Neste momento, a indagação que surge é: é possível o fim do petismo em 2014? O fim do petismo pressupõe o fim da era petista à frente da presidência da República. Tal evento poderá ocorrer caso um dos cinco fenômenos venham a acontecer, quais sejam: 1) Recuperação da popularidade de Dilma; 2)Ressaca (cansaço) eleitoral para com o PT; 3) Recuperação da popularidade de Dilma, mas ressaca com o PT; 4) E não recuperação da popularidade de Dilma e ausência de ressaca para com o PT; 5) Não recuperação da popularidade de Dilma e eleitores com ressaca do PT. 

Observem que distingo os fenômenos. O eleitor poderá realizar escolhas desconsiderando o partido ou desconsiderando o competidor. Noutros casos, o eleitor realizará a sua escolha, considerando o partido e o competidor. Tais eventos surgem em virtude da seguinte hipótese: o petismo existe em parte do eleitorado brasileiro e foi fortalecido em dadas regiões, como o Nordeste, em virtude do lulismo. Sendo assim, o partido PT importa para explicar, em parte, o comportamento do eleitor. 

Caso o primeiro fenômeno ocorra, não existirão espaços para novos candidatos. A maioria dos eleitores optará pelo suposto porto seguro. Com isto, Dilma será reeleita. Se o segundo fenômeno vier a acontecer, Dilma sofrerá as consequências. Com isto, três outros eventos surgem, os quais mostram relações interdependentes entre o desempenho de Dilma e o petismo.

A recuperação da popularidade de Dilma poderá ocorrer, mas pesquisas podem revelar ressaca para com o PT. Diante deste cenário, tenho a hipótese de que os candidatos da oposição adquirem chances de vencer a disputa. Se não ocorrer a recuperação da popularidade de Dilma, mas a ressaca para com o PT não existir, surge contexto propício para o PT ofertar um novo candidato aos eleitores brasileiros. E se a ressaca com o PT existir junto com a não recuperação da popularidade de Dilma, algum candidato da oposição tende a vencer a disputa eleitoral.

Os argumentos apresentados foram construídos com base na dinâmica da última eleição para prefeito do Recife. Pesquisas realizadas mostraram, inicialmente, o então prefeito João da Costa (PT) mal avaliado. Porém, os eleitores desejavam que o PT continuasse à frente da prefeitura. No decorrer da campanha, pesquisas detectaram considerável diminuição dos eleitores que desejavam a continuidade do PT. E o prefeito manteve alta rejeição. Conclusão: o PT perdeu a eleição na cidade do Recife.


A pressa não faz bem a análise

Adriano Oliveiraqua, 17/07/2013 - 15:53

A pressa é inimiga da análise eleitoral. A coerência é necessária para a análise inteligível do comportamento do eleitor. Os porcentuais importam, mas eles surgem em razão de o eleitor estar inserido no contexto social. Estas três assertivas devem fazer parte do raciocínio daqueles que desejam interpretar as pesquisas eleitorais. Se elas não estiverem presentes, análises equivocadas surgirão, e, por consequência, estratégias ineficientes serão criadas.

A CNT/MDA divulgou pesquisa sobre as eleições presidenciais realizada no período de 7 a 10 de julho. Antes desta pesquisa, duas outras foram divulgadas, as quais já mostravam o que esta pesquisa evidenciou e consolidou. Para a minha surpresa, muitos apressados frisaram que Dilma perdeu popularidade. Outros enfatizaram que Dilma não tem condições de ser reeleita. E muitos exaltaram o crescimento de Marina, Aécio e Eduardo.

A pesquisa realizada pela CNT/MDA comprova o que já foi anteriormente mostrado por outros institutos. Ela não trouxe nenhuma novidade. As manifestações sociais ocorridas em várias capitais brasileiras, a cobertura delas por parte da mídia e o mediano pessimismo econômico de parte do eleitorado motivaram a queda da popularidade de Dilma e revelaram o que eu há muito tempo já frisava: Dilma tem frágil favoritismo para vencer a disputa no primeiro turno da eleição presidencial de 2014.

Mas frágil favoritismo não significa que Dilma tende a perder a eleição. Além disto, não é por conta de que 44,7% (CNT/MDA) dos entrevistados não votam na presidente de jeito nenhum que ela perderá a eleição. Antes das manifestações, variados analistas e petistas afirmaram que Dilma venceria a eleição no primeiro turno. Ali estava presente a análise apressada. E hoje tal tipo de análise continua presente.

Se Dilma em 60 dias perdeu popularidade, qual é a razão dela não se recuperar em período semelhante? Quais contextos surgirão que podem influenciar ou não as escolhas dos eleitores? Novos protestos, semelhantes aos de junho, ocorrerão? Existe desejo de mudança por parte do eleitor? Se sim, já existe algum candidato que canaliza tal desejo? A neutralidade discursiva é a melhor estratégia para enfrentar Dilma/Lula? A melhor estratégia da oposição é o forte ativismo oposicionista discursivo?

Não desprezo os eventos que podem estar por vir. São eles que provocam os eleitores. Os porcentuais dos competidores não nascem do nada. Eles têm origem. Portanto, neste momento, a prudência é necessária, pois o que mais importa é o que estar por vir. Neste caso, estou atento ao otimismo do consumidor. Estou atento quanto à eficácia ou não das recentes ações de Dilma. Estou atento aos rumores de que Joaquim Barbosa e José Serra poderão ser candidatos.

Presto atenção à neutralidade do governador Eduardo Campos quanto à Dilma/Lula. Considero como fator relevante o crescimento de Marina Silva nas últimas pesquisas. E estou curioso para verificar se Aécio conseguirá se aproximar das classes C e D, em particular da região Sudeste.  Portanto, não tenho pressa para construir vereditos eleitorais.