Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Conjuntura e Estratégias

Perfil:Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE - Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE.

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Previsões equivocadas

Adriano Oliveiraqua, 18/06/2014 - 13:04

As manifestações ocorridas em junho de 2013, a Copa do Mundo e as vaias à presidente Dilma na abertura do torneio mundial de futebol caracterizarão a eleição presidencial deste ano. Em razão de cada evento ocorrido, um prognóstico foi realizado. A capacidade preditiva deve fazer parte da interpretação dos eventos. Mas a previsão deve ser desapaixonada. Não podemos inserir na previsão eleitoral apenas os nossos desejos.  

As jornadas de junho do ano passado foram reconhecidas como eventos que possibilitaram ruptura com um estágio anterior. Os manifestantes foram às ruas em razão de que não mais aguentavam políticos corruptos e desejavam oferta de serviços públicos qualificados. Vários interpretes acreditaram que dali nascia um novo Brasil. Porém, sempre considerei as manifestações como mais um evento num conjunto de eventos que começou a ser formado no impeachment de Fernando Collor.

Em razão da realização da Copa do Mundo no Brasil, surgiu o coro “No Brasil não vai ter Copa”. Tal movimento era observado fortemente nas redes sociais, ambiente ocupado majoritariamente por pessoas das classes A e B. Foram estes segmentos sociais, inclusive, como bem mostraram diversas pesquisas de opinião, que participaram em sua maioria das jornadas de junho de 2013. O “Não vai ter Copa” incentivou os presidenciáveis, inclusive a presidente Dilma, a ficarem distantes do tema Copa. Eles temiam e temem associar a Copa às suas respectivas imagens.

Se as redes sociais espalhavam o “Não vai ter Copa”, pesquisas mostravam que as manifestações de junho perdiam apoio popular em virtude da violência. E revelavam a divisão da população brasileira quanto ao apoio à Copa. Se o apoio popular às manifestações declinava, era palpável acreditar em manifestações durante a Copa semelhantes às ocorridas em junho de 2013? O imprevisível deve ser considerado. Porém, a interpretação adequada era que manifestações focalizadas ocorreriam, mas não similares às jornadas de junho de 2013.

A Copa do Mundo sempre teve o olhar desconfiado da imprensa e de boa parte da opinião pública. Tal olhar era absolutamente normal, visto que boa parte das obras da Copa do Mundo prometidas pelos governos não foram entregues. Além disto, os noticiários mostravam diariamente, antes do inicio da Copa, obras que ainda estavam em fase de conclusão às vésperas dos jogos do mundial de futebol. A Copa começou e a imprensa, como era previsível, concentrou os seus olhares para os jogos e turistas.

No dia da abertura da Copa, a presidente Dilma foi vaiada e xingada. Diversos atores, de modo apressado, reforçaram as criticas à Dilma. Erro estratégico. Os torcedores que vaiaram Dilma são, certamente, das classes A e B. As pesquisas de opinião mostram que Dilma tem reduzida aprovação em São Paulo e nas classes A e B. E neste segmento econômico, a má avaliação da gestão da presidente é observada em vários estados do Brasil. Portanto, as vaias eram previsíveis. Mas isto não significa, e ai está o erro interpretativo, que o “Brasil vaiou a presidente Dilma” e que as vaias devem ser usadas eleitoralmente.

Por enquanto, manifestações semelhantes às de junho de 2013 não ocorreram durante a Copa. O “Não vai ter Copa” diminuiu o seu percentual de citações nas redes socais. E às vésperas do inicio da Copa, o monitoramento das redes sociais indicava o aumento do “Vai ter Copa”. As obras inacabadas não mais fazem parte fortemente da agenda midiática. E as vaias à presidente Dilma mereceram reprovação de boa parte da imprensa e repúdio nas redes socais.    


Aparentes enigmas

Adriano Oliveirater, 10/06/2014 - 10:25

Eleições possuem enigmas? Sim. Alguns podem ser identificados. Outros custam a sê-lo. A última pesquisa Datafolha mostrou declínio nas intenções de voto dos candidatos Dilma Rousseff e Eduardo Campos. Diante disto, as conclusões iniciais foram que a presidente Dilma continuava a cair. E o candidato do PSB não mais era um candidato competitivo. Aparentemente, as conclusões são verídicas. Porém, é importante revelar aparentes enigmas.

O perfil da amostra da pesquisa do Datafolha tem as seguintes características:

1.      42% dos entrevistados têm renda até R$ 1.448,00. Neste universo de eleitores, a presidente Dilma obtém 51% de intenções de voto. Portanto, no segmento de eleitores de maior dimensão no eleitorado, a candidata do PT tem ampla vantagem sobre os adversários;

2.      22% dos entrevistados têm renda entre R$ 1. 448,00 a R$ 2.172,00. Neste universo, a presidente Dilma obtém 20% de intenções de voto. O senador Aécio Neves conquista 25% do eleitorado. E o candidato Eduardo Campos, 23%. Dilma declina consideravelmente neste segmento de renda. E não é exagero afirmar que o candidato do PSB está empatado com Aécio Neves.

3.      16% dos pesquisados possui renda entre R$ 2.172,00 até R$ 3.620,00. O candidato do PSDB, neste universo, obtém 21% de intenções de voto. O ex-governador Eduardo Campos, 16%. E a candidata do PT, 14%. Nesta parcela da população, Aécio amplia a sua vantagem sobre os demais competidores. E a presidente Dilma tem desempenho semelhante ao do candidato do PSB;

4.      11% dos entrevistados têm renda entre R$ 3.620,01 até R$ 7.240,00. A presidente Dilma obtém neste espaço de eleitores, 9% de intenções de voto. Aécio conquista 17% e Eduardo 16%. Portanto, observamos o seguinte fenômeno: quanto maior a renda, menor o percentual de eleitores dilmistas. Além disto, a distância entre Eduardo e Aécio só é acentuada no segmento que possui renda entre R$ 2.172,00 até R$ 3.620,00.

A análise do desempenho dos candidatos através da segmentação da amostra, desvenda dois aparentes enigmas: 1) são os eleitores de menor renda que garantem, neste instante, as condições de sucesso eleitoral de Dilma; 2) Eduardo e Aécio continuam a disputar semelhantes universos de eleitores. Em razão desta disputa, surge a indagação: Eduardo tem condições de superar Aécio Neves?

O olhar segmentado das diversas pesquisas eleitorais realizadas este ano mostra que a disputa presidencial será caracterizada por forte clivagem econômica. Diante deste aparente enigma, indago: por que os candidatos da oposição ainda não escolheram como foco dos seus respectivos discursos os eleitores que garantem hoje a reeleição da presidente Dilma?


Indagação fundamental

Adriano Oliveirater, 27/05/2014 - 09:55

A interpretação dos eventos sociais requer parcimônia e olhar profundo no conteúdo social. Pesquisas quantitativas podem conduzir o estrategista ao erro já que a análise dos números é essencialmente objetiva. A subjetividade é necessária na interpretação dos porcentuais. Por isto, as pesquisas qualitativas são necessárias. O mergulho na realidade social requer interpretação de causa e efeito. E não simplesmente considerar a caracterização dos eventos.  A arte de pensar claramente de Rolf Dobelli e o Fetichismo do conceito de Luis de Gusmão são duas obras que norteiam as minhas interpretações das pesquisas eleitorais.   

O termo mudança continua a guiar as estratégias dos presidenciáveis de oposição. Pesquisas diversas mostram que a maioria dos brasileiros deseja mudança. Este é o dado objetivo. Entretanto, recente pesquisa do Ibope (Maio/2014) mostrou que 71% dos brasileiros estão satisfeitos com a vida que vem levando hoje. Neste caso, se eles estão satisfeitos, por que desejam mudar? Mudança é um termo que sugere movimento. Portanto, proponho que se considere a seguinte hipótese: os eleitores brasileiros desejam que o Brasil continue a mudar.

Se a hipótese apresentada é considerada, o raciocínio que conduz a criação da estratégia eleitoral partirá da seguinte premissa: parte dos eleitores brasileiros reconhece que o Brasil mudou nos anos recentes. E desejam que esta mudança continue. Isto significa, portanto, que a mudança desejada não representa ruptura com a ordem atual, na qual estão presentes conquistas. Mas a manutenção das conquistas, sem o retorno a dado ponto temporal, no qual, para parte do eleitorado, não existiam mudanças e conquistas.   

A pesquisa do Ibope (Maio/2014) revela que 28% dos eleitores consideram “Bom” o governo da presidente Dilma. Neste universo, Dilma obtém 55% de intenções de voto. Aécio Neves, 7%; e Eduardo Campos, 12%. Ressalto que 7% consideram “ótimo” o governo Dilma. Portanto, os dados sugerem que se a avaliação do governo Dilma declinar, Eduardo poderá absorver eleitores dilmistas. Entretanto, existem condições para que a aprovação do governo Dilma decline mais?

A referida pesquisa do Ibope mostra que 20% dos eleitores afirmam que o governo Dilma é “Péssimo”. Aécio obtém neste universo eleitoral, 35% de intenções de voto. Eduardo Campos tem 30%. Conclusão: o principal adversário do PSB é o PSDB. Ou seja: se a reprovação de Dilma aumentar, Aécio e Eduardo tendem a crescer. Mas esta afirmação contradiz com a assertiva do parágrafo anterior? Sim. Não está claro, portanto, quem será fortemente beneficiado caso a avaliação de Dilma decline.

A pesquisa do Ibope (Maio/2014) sugere também que existe “teto” para o crescimento eleitoral da presidente Dilma. No primeiro turno, a presidenta obtém 40% de intenções de voto. No segundo turno, o seu porcentual máximo é de 43%. Mas tal teto me conduz a óbvia constatação: a pesquisa do Ibope mostra que a Avaliação da administração continua a sugerir associação significativa com a intenção de voto. Neste sentido, é possível que a avaliação positiva de Dilma decline mais?  Esta é a indagação fundamental para o PT, PSB e o PSDB. 


Manifestações e “Super quinta”

Adriano Oliveiraseg, 19/05/2014 - 16:42

Reli recentemente o livro de Jessé de Souza, a Modernização Seletiva. Esta excelente obra que coloca luz sobre os principais interpretes do Brasil – Gilberto Fyeire, Roberto DaMatta e Sérgio Buarque de Holanda – sugere que o desvendar dos eventos e hábitos sociais requer a estratificação social dos indivíduos.Quais as visões de mundo dos indivíduos dos segmentos socioeconômicos diversos? Para Jessé de Souza as práticas sociais das pessoas podem não ser semelhantes em virtude do estrato social em que estão inseridas.

A premissa de Jessé de Souza guiou a minha análise das manifestações de junho de 2013. Concluí com base em várias pesquisas de opinião que a causa principal das jornadas de junho foi o aumento da passagem de ônibus na cidade de São Paulo. As manifestações foram fortemente estratificadas economicamente. E a reclamação predominante dos manifestantes foi o aumento da passagem de ônibus. Em seguida, as agendas dos manifestantes foram as que sempre existiram: corrupção, violência e qualificação da oferta de saúde pública.

Logo em seguida às manifestações de junho de 2013 considerei que elas poderiam se repetir em junho de 2014 durante a realização da Copa do Mundo. Porém, os atos de violência praticados por diversos manifestantes, em particular o movimento Black Bloc, incentivaram a perda de apoio popular às manifestações. Neste sentido, afirmei e continuo a afirmar que na Copa do Mundo manifestações pontuais e de baixa intensidade ocorrerão.

Os eventos ocorridos na “super quinta”, em 15/05/2014, representaram novas manifestações. Ao contrário das manifestações de junho de 2013, estas da “super quinta” foram coorporativas. Movimentos dos Sem Teto, funcionários públicos, motoristas de ônibus e trabalhadores associados às entidades sindicais foram às ruas. As pautas principais foram moradia e melhoria salarial.  Os manifestantes de junho de 2013 ficaram em casa.

A “super quinta” representou o terceiro estágio das manifestações. Os levantes de junho corresponderam ao primeiro estágio. O Black Bloc ao segundo. Novos atores e pautas surgiram no terceiro estágio das manifestações. Os atores da “super quinta” não foram os mesmos das jornadas de junho de 2013. As pautas também. Elas só se assemelham num ponto: clamam que os governos atendam às suas demandas.    

Observo que parte dos manifestantes da “super quinta”, no caso o Movimentos dos Sem Teto e funcionários públicos, têm as suas demandas atendidas historicamente pelo PT. Portanto, não cometam erros interpretativos. Os manifestantes da “super quinta” fizeram barulho, sugeriram que a sociedade está inquieta, mas, certamente, caminharão com o PT nas eleições deste ano. 


As gerações dos eleitores

Adriano Oliveiraqua, 07/05/2014 - 13:49

Escrevo este artigo inspirado no brilhante texto do filosofo Renato Janine publicado recentemente na revista Interesse Nacional (Abril – 2014). Janine aborda as agendas brasileiras, onde a primeira surge com o impeachment de Collor. O Plano Real motivou a origem da segunda agenda. E a inclusão social ocorrida na era Lula a terceira. As manifestações de junho de 2013 representaram para Janine a origem da quarta agenda.

Concordo com o raciocínio de Renato Janine até a terceira agenda. Pois não considero que as manifestações representaram a origem de outra agenda. O Brasil, desde o impeachment de Collor, sofre processo de transformação social. E neste processo, novos eleitores surgiram por razões demográficas e mudanças em suas respectivas visões de mundo.  

O impeachment de Collor representou a origem da primeira geração de eleitores. Esta geração foi caracterizada pelo exercício da liberdade de manifestação após o período militar. A segunda geração de eleitores surge com o advento do plano Real. Os brasileiros conviviam com a incerteza econômica provocada pelo alto índice inflacionário. Com o surgimento do plano Real, os eleitores passaram a ter poder de previsibilidade quanto às capacidades de consumo e investimento.

A era Lula proporcionou a inclusão social de milhões de eleitores. Tal inclusão adveio da ampliação da rede de proteção social, da oferta de crédito, do aumento do nível de instrução, da redução do índice de desempregados, do aumento da renda e do consumo. A inclusão social caracteriza os eleitores da terceira geração.

As gerações de eleitores são caracterizadas pela aquisição de novas visões de mundo. Os eleitores adquiriram novos valores a cada geração, mas não perderam os já conquistados. As visões de mundo adquiridas pelos eleitores foram provocadas por eventos e ações das instituições. As denúncias da imprensa motivaram que os eleitores fossem às ruas em 1992. Surge a cultura do direito à livre manifestação. O plano Real foi uma a ação institucional que propiciou a cultura da estabilidade econômica. E as ações da era Lula geraram a cultura da oportunidade de bem-estar para todos.

Os eleitores da quarta geração estão presentes nesta eleição presidencial. Quem são estes eleitores? São os que desejam manter as conquistas das três gerações e estão descrentes com os partidos políticos e com a classe política. Estão também ansiosos, como diversas pesquisas presidenciais revelam, para que governos mostrem caminhos para a melhoria dos seguintes setores: saúde, educação, infraestrutura e segurança.

O descrédito para com os partidos políticos e a classe política não surgiu após as manifestações de 2013. Assim como as demandas por saúde, educação, infraestrutura e segurança. O descrédito e as demandas apresentadas sempre estiverem presentes no eleitorado brasileiro. Entretanto, ambos não foram atendidos satisfatoriamente pela classe política. Ao contrário das demandas por liberdade, estabilidade econômica e inclusão social.


Saudades e eleição

Adriano Oliveirater, 22/04/2014 - 16:59

Três variáveis tradicionais contidas na pesquisa eleitoral orientam as interpretações de diversos atores políticos: 1) Intenção de voto; 2) Avaliação da administração; 3) Nível de conhecimento. No momento, uma variável encanta tais atores: Desejo de mudança. As três variáveis tradicionais são importantes quando consideradas conjuntamente. A variável “desejo de mudança” não consegue, até o instante, revelar o estado de ânimo dos eleitores. Considero-a ilustrativa.

Consta na primeira pesquisa do Instituto de Pesquisa Mauricio de Nassau (IPMN) realizada em abril deste ano uma variável importante para antever o comportamento do eleitorado pernambucano, qual seja: a Saudade. Esta variável foi incluída no questionário por influência da Antropologia das Emoções e de Roberto DaMatta.

Indivíduos sentem saudades daquilo que já conviveram. Saudades de alguma coisa sugerem que os indivíduos têm memória positiva de algo. Neste caso, eleitores têm boas lembranças, e, portanto, sentem saudades do passado e estão atentos ou preocupados com o que virá no futuro. A hipótese que tenho é que eleitores sentem saudades de governos e por isto tendem a votar na reeleição do atual governante ou no candidato apoiado por ele.

Eduardo Campos não poderá mais ser candidato ao Governo de Pernambuco. Ele deixará saudades ou nenhuma saudade? 42% dos eleitores afirmaram que ele deixará saudades. 26% responderam que ele não deixará nenhuma saudade – IPMN, 04/2014. Tais dados sugerem que o candidato Paulo Câmara, o qual é apoiado pelo governador Eduardo Campos, tende a crescer eleitoralmente – Possibilidade.

A possibilidade apresentada surge em razão da seguinte hipótese: as ações do governo Eduardo Campos deixarão saudades, já que 57% dos eleitores aprovam (ótimo/bom) a sua gestão.

Dois pontos importantes: na capital pernambucana, 41% dos eleitores afirmaram que Eduardo Campos deixará saudades. Em Recife, Paulo Câmara obtém 23% de intenções de voto. Na região do Sertão, 51% dos eleitores afirmaram que desejam votar em Armando Monteiro. Nesta região, 28% dos eleitores frisaram que o governador Eduardo Campos deixará saudades. Portanto, neste instante, a variável “saudade” contribui para explicar o desempenho dos candidatos ao governo de Pernambuco. Ressalto que a saudade do eleitor para com alguém pode ser desconstruída ou consolidada.

Ao considerar o todo da pesquisa do IPMN, constato que parte do eleitorado pernambucano deseja a continuidade. Mas isto não significa, neste instante, que os eleitores tendem a votar majoritariamente no candidato da situação. Pesquisas servem para construir estratégias eleitorais. Pesquisas servem para iluminar caminhos. 


A frágil tese da mudança

Adriano Oliveiraqui, 10/04/2014 - 13:57

A inocência por vezes está presente na mente dos candidatos. Geralmente o dado estatístico serve apenas como instrumento de informação. A interpretação dele não é realizada. Mudança e continuidade são costumeiramente evocados por diversos analistas para sugerir o comportamento dos eleitores no futuro. Oferta de candidatos versusdemandas da população são utilizados para fornecer as razões do desempenho dos presidenciáveis nas pesquisas.

O antropólogo Clifford Geertz afirma: “Se quiséssemos verdades caseiras, deveríamos ter ficado em casa”. Pois bem, se desejo interpretar o comportamento atual do eleitorado brasileiro preciso estar inquieto e não me deter a afirmações triviais. Preciso sair da frente do computador e analisar com criatividade especulativa os dados ofertados por diversas pesquisas.

A última pesquisa do Datafolha (06/04/2014) revela queda na intenção de votos da presidente Dilma Rousseff e estabilidade dos porcentuais dos principais candidatos da oposição. Este dado é relevante, pois 72% dos eleitores desejam que as ações do próximo presidente sejam diferentes do atual. Neste caso, indago: se o desejo de mudança existe, por que os candidatos da oposição não crescem? A tese explicativa é econômica: os candidatos oposicionistas são pouco conhecidos (oferta). Quando ficarem, crescerão.

Tal tese deve ser considerada. Mas se os candidatos da oposição tivessem crescido na última pesquisa do Datafolha, o argumento oferecido à opinião pública seria: Eduardo e Aécio cresceram porque os eleitores desejam mudança. Portanto, a tese da mudança serve para tudo. Ressalto que: 32% dos votantes consideram Lula como mais preparado para realizar as mudanças. E Lula apoia Dilma. E foi Lula, como bem evidenciam vários artigos acadêmicos, quem contribuiu para o sucesso eleitoral da atual presidente na eleição de 2010.

A recente pesquisa do Datafolha revelou que 36% aprovam a administração da presidente Dilma. Isto significa, portanto, desejo de mudança? Aparentemente sim. Mas quem deseja mudança? 51% dos eleitores aprovam o governo Dilma no Nordeste. No Sudeste, a aprovação é de 28%. Portanto, os eleitores do Sudeste estão mais propensos à mudança. Os do Nordeste, mais propensos à continuidade. Clivagem geográfica presente.

Dado importante: 42% dos eleitores que ganham até dois salários mínimos aprovam a gestão de Dilma. Com o aumento da renda, observa-se a queda da aprovação do governo petista. Clivagem econômica presente. Então, a eleição presidencial deste ano pode vir a ser caracterizada por claras clivagens geográficas e sociais. Tais clivagens garantem o sucesso eleitoral de Dilma? 

Não se pode desprezar a seguinte hipótese, a qual advém da análise do comportamento dos eleitores nas disputas presidenciais de 1998 e 2006. No primeiro governo de FHC, eleitores obtiveram conquistas. E em março de 1998, a taxa de aprovação do governo FHC era de 39% - Ibope. Em março de 2006, após o escândalo do mensalão, o qual ocorreu em 2005, a aprovação de Lula era de 38% - Ibope. Em março deste ano, o Ibope revelou que a aprovação de Dilma era de 36%.

Certamente, em março de 1998, a tese da mudança sugeriu que FHC não seria reeleito. Ocorre o mesmo com Lula em 2006. Tal tese sugere, neste instante, que Dilma tende a não ser reeleita. Devemos ampliar nosso olhar analítico. FHC e Lula recuperaram popularidade e foram reeleitos em virtude de que os eleitores consideraram o passado, ou seja, as conquistas obtidas nos respectivos governos.

Neste momento, com o objetivo de construir previsões, deve-se considerar que as clivagens econômica e geográfica podem beneficiar o sucesso eleitoral de Dilma. Além do receio do futuro. Ou seja: parte dos eleitores pode temer a perda das conquistas que obtiveram na era PT e temerem o futuro caso Eduardo ou Aécio vença a eleição.


Copa do mundo e eleição

Adriano Oliveiraqui, 20/03/2014 - 09:58

Pesquisas de opinião que tentem desvendar o futuro tornam os cenários e as disputas eleitorais previsíveis. Mas previsão não significa ato de adivinhação. A previsão é a construção de cenários. Os cenários condicionam a criação de estratégias por parte do competidor com o objetivo de amenizar os riscos e para aproveitar as oportunidades da disputa eleitoral.

A eleição presidencial de 2014 tem sugerido variadas especulações quanto ao seu possível resultado. Tais especulações advêm, em parte, de eventos que ocorreram e que irão ocorrer. Em junho de 2013, manifestações aconteceram em diversas cidades brasileiras. No decorrer e após as manifestações, a avaliação da presidente Dilma Rousseff declinou. E voltou a crescer. Pesquisa de fevereiro deste ano mostra que a gestão petista tem 39% de aprovação. As várias pesquisas realizadas em 2014 revelam que Dilma continua a ter frágil favoritismo de vencer a eleição no primeiro turno.

É importante salientar que a gestão dilmista recuperou popularidade e as manifestações perderam. Em fevereiro, pesquisa do Datafolha revelou que 52% dos eleitores aprovam as manifestações e 42% a reprovam. Neste instante, a expectativa está em torno das consequências da Copa do Mundo para a eleição presidencial. A razão causal sugerida é que a Copa do Mundo pode trazer benefícios e malefícios para os presidenciáveis.

Segundo pesquisa do Ibope realizada em fevereiro do corrente ano, através de pergunta espontânea, 21% dos eleitores brasileiros afirmaram que sentiam, naquele momento, alegria em razão da Copa.  Numa escala de 0 a 10, 7,0 foi a nota média obtida para aprovação ou desaprovação da frase “Eu sou um grande torcedor da seleção brasileira de futebol” – Ibope, fevereiro de 2014. Portanto, existe aprovação. A pesquisa do Ibope revelou que 58% dos brasileiros são favoráveis a realização da Copa do Mundo no Brasil. No Nordeste, região onde Dilma tem alta popularidade, 72% são favoráveis.

Pesquisa do Instituto de Pesquisa Mauricio de Nassau (IPMN) realizada no Recife em março deste ano revela que: 1) 73,3% dos entrevistados pretendem assistir aos jogos da Copa do Mundo; 2) 71,5% são favoráveis à realização da Copa do Mundo no Brasil; 3) 48,3% estão torcendo muito pela seleção brasileira; 4) 69,6% ficarão muito felizes ou felizes se a seleção brasileira conquistar a Copa; 5) 66,2% são contrários que ocorram manifestações durante a Copa.

Os dados das pesquisas do Ibope e IPMN sugerem que: 1) A maioria dos brasileiros é favorável à realização da Copa do Mundo no Brasil, apesar do volumoso gasto público em razão dela; 2) O declínio do apoio às manifestações diversas em virtude dos atos de violência indica que elas serão focalizadas e de baixa intensidade durante a Copa. As manifestações durante o evento esportivo da FIFA não serão semelhantes às de junho de 2013 – Alta intensidade; 3) Já que a Copa será realizada, parte dos brasileiros a deseja, torcerá pela seleção e ficará feliz com as vitórias.

Portanto, não vejo a Copa, neste instante, como evento que proporcionará intensas e grandiosas manifestações capazes de interferir fortemente de maneira negativa na disputa presidencial, em particular no desempenho de Dilma Rousseff. Outro dado importante: 55,3% dos recifenses não acreditam que as obras da Copa ficarão prontas antes do seu inicio. E neste universo, 52,6% consideram que a não conclusão das obras é de responsabilidade dos governos Federal e Estadual – IPMN, fevereiro de 2014. Portanto, as consequências negativas da Copa serão democratizadas entre os gestores. 


A dinâmica da eleição proporcional

Adriano Oliveiraseg, 10/03/2014 - 10:30

Quais são os mecanismos que regem a eleição proporcional? Esta pergunta está presente na mente de muitos competidores. Porém, alguns têm a resposta, outros relutam em acreditar na obviedade dela. E alguns não sabem de fato a resposta. Os mecanismos da eleição proporcional são diminutamente considerados no raciocínio daqueles que desejam pesquisar ou pensar a dinâmica eleitoral brasileira.

A dinâmica da eleição proporcional é caracterizada pelos seguintes fatores: 1) Prefeitos arregimentam eleitores; 2) Lideranças comunitárias são instrumentos para a conquista de eleitores; 3) Troca de favores entre eleitor e candidato permite a conquista do voto; 4) Eleitores admiram candidatos.

O prefeito é ator estratégico na conquista de votos para candidatos. Neste sentido, deputados eleitos são aqueles que possuem prefeitos. Mas como possuir prefeitos? Possuir prefeitos parte da ideia de que eles são controlados pelo deputado com mandato ou por aquele que deseja ser parlamentar. O controle do prefeito ocorre através da negociação política, onde benefícios são ofertados pelo competidor a eles.

Favores podem ser distribuídos ao eleitor em razão do prefeito ter o controle da máquina pública do município. Deste modo, prefeitos adquirem condições de conquistar ou manter eleitores. Tal prática é característica. Não representa, portanto, exceção. Quantos votos um prefeito tem condições de dar ao candidato? O potencial de voto do prefeito é proporcional a sua importância/valor para o competidor.

As lideranças comunitárias exercem força sobre muitos candidatos, mas não necessariamente sobre os eleitores. Elas representam, teoricamente, a comunidade. Isto é: através das lideranças, os competidores podem conquistar eleitores. A relação entre candidatos e lideranças é caracterizada pela troca de benefícios. O competidor deseja o voto. A liderança deseja algum benefício, dentre os quais, financeiros. As lideranças organizam festas nas comunidades e prestam favores com o auxilio do candidato.  Através destes instrumentos, eles buscam conquistar o voto do eleitor e a confiança do candidato.

Lideranças propagandeiam o seu potencial de votos, ou seja, quantos votos eles dão a um competidor. Políticos experientes afirmam que o potencial de voto de uma liderança equivale a 30% do que ele diz ter para dar ao competidor. Então, se a liderança afirma que tem 2000 votos, na verdade ela dará 600 votos ao candidato.

Existem eleitores que votam pela amizade e os que votam por admirar o candidato. O voto pela amizade caracteriza-se por algum favor prestado ao eleitor no passado. Favor este concedido não só a ele, mas a algum membro da família. Mas também, pelo fato do eleitor conhecer o candidato e este o tratar bem sempre que o encontra.

Não se devem desprezar os eleitores que admiram as ideias e as atitudes do candidato – “votos de opinião”. Se este, por exemplo, defende o direito dos trabalhadores ou a união homossexual, eleitores podem ser conquistados. Os competidores que pautam a sua conduta pela oposição a algum governo também conquistam eleitores.

Aparentemente não existem mistérios para vencer a disputa eleitoral proporcional. Mas os mecanismos requerem necessariamente ação dos competidores com a intenção de conquistar eleitores. Deste modo, faz-se necessário que os concorrentes reconheçam que prefeitos, lideranças, favores, amizade e ideias/bandeiras possibilitam, conjuntamente, o sucesso eleitoral. A dúvida, entretanto, é saber o que mais importa para o sucesso do competidor.  


Eleição complexa?

Adriano Oliveiraqua, 19/02/2014 - 14:43

O antropólogo Gilberto Velho utiliza o termo sociedades complexas para qualificar os agrupamentos humanos contemporâneos. O brilhante antropólogo discorre sobre escolhas individuais, status social, ações, significados e símbolos para evidenciar as razões das atuais sociedades serem complexas. E, por consequência, requererem árduo esforço intelectual para serem compreendidas.

A dinâmica da eleição presidencial de 2014 sugere complexidade? Sim. As pesquisas quantitativas revelam que existem riscos e oportunidades para os três principais competidores. E que Dilma, apesar dos riscos, continua a ter frágil favoritismo de vencer a disputa no primeiro turno. Esta última afirmação não se baseia, exclusivamente, na intenção de votos, mas em outros indicadores que sugerem, inclusive, a utilização do método qualitativo para que conclusões interpretativas se consolidem.

Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e o instituto MDA revela que a avaliação positiva da presidente Dilma Rousseff é baixa: 36,4%. Assim como a negativa: 24,8%. Então, qual é a avaliação da gestão da presidente Dilma, se 37,9% a classificam como regular? Neste sentido, os eleitores sugerem ao estrategista que estão em dúvida quanto a que posição tomar em relação à avaliação do gestor. O regular está presente no centro de uma linha imaginária, onde os extremos representam aprovação ou reprovação.

Campanhas importam. Tal premissa é verdadeira. Campanhas importam para todos os competidores. Esta premissa também é verdadeira. Portanto, Dilma tem condições de conquistar eleitores que hoje classificam o seu governo como regular. E Aécio e Campos também. Este é o dado. Não se pode afirmar, exclusivamente, que os oposicionistas conquistarão eleitores quando a campanha televisiva começar.

Potencial ameaça para Dilma foi revelada pela pesquisa CNT/MDA: 77,2% dos eleitores consideram que o custo de vida aumentou. Este indicador é o adequado para prever a escolha dos eleitores diante da conjuntura econômica. Esqueçam a variação do PIB. Eleitores têm sentimentos. Portanto, se eles “sentem” que estão perdendo poder de compra e a responsabilidade da perda é do presidente, eles podem vir a escolher um opositor à Dilma no dia eleição.

Oportunidade para Dilma e risco para a oposição: 35,2% dos eleitores desejam que o próximo presidente continue totalmente ou com a maioria das ações da atual presidente. Este dado sugere que 35,2% dos eleitores desejam continuidade. E se existe o instrumento da reeleição, estes eleitores tendem a votar em Dilma - Hipótese.

Outro dado relevante: 25% (CNT/MDA) desejam que algumas ações da atual presidente continuem, mas que a maioria delas mude. Mas, se os eleitores imaginarem, no decorrer da campanha, que poderão perder conquistas já alcançadas? Então, diante deste contexto, é adequado considerar que: 60,2% dos eleitores desejam continuidade e mudanças pontuais e que, não necessariamente, o presidente deva ser trocado.

Portanto, não concentro meus olhos em apenas uma única hipótese, qual seja: 62,2% dos eleitores desejam mudança. A pesquisa CNT/MDA mostra que 37,2% dos eleitores desejam que o próximo presidente mude totalmente a forma de governar. Este é o universo real de eleitores que almeja mudança. E Aécio e Campos já conquistaram este universo.  

Eduardo Campos, desconsiderando as variáveis geográficas, tem uma vantagem sobre Aécio Neves: 29,1% não conhece o presidenciável do PSB. Isto significa que ele pode crescer. Mas tal dado sugere também que à medida que ele se torne conhecido, a sua rejeição possa vir a aumentar. Por fim, constato que PSB e PSDB estão brigando, ainda, pela mesma fatia do eleitorado. Nenhum deles conseguiu conquistar eleitores de Dilma, a qual tem intenções de voto, considerando várias pesquisas recentes, entre 40% a 45%.