Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Conjuntura e Estratégias

Perfil:Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE - Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE.

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O futuro da presidente

Adriano Oliveiraqua, 10/06/2015 - 10:50

São inúmeros economistas que consideram que a realização do ajuste fiscal possibilitará a superação da “crise” econômica que assola o Brasil. Se tal premissa for verdadeira, prevejo que o Brasil superará a “crise”, a qual não é volumosa. Se a superação da crise ocorrer, a presidente Dilma recuperará popularidade?

Desde o ano passado existem previsões catastróficas para Dilma Rousseff. Inicialmente, a previsão era de que Dilma não seria reeleita. Assim como previ, Dilma venceu a eleição. Sentimentos de medo com o passado fernandohenriquista por parte de parcela do eleitorado permitiram o sucesso da candidata do PT. Após a posse da atual presidente, a possibilidade de impeachment veio à tona. A tão propalada tempestade perfeita orientou diversas análises conjunturais.

O aumento da inflação, intrigas entre o Executivo e o Legislativo, o pessimismo do setor produtivo, o ajuste fiscal e diversas manifestações nas ruas fizeram com que a tese do impeachment da presidente Dilma prosperasse. Porém, a análise conjuntural não é tarefa para principiantes. Para desenvolvê-la, o olhar precisa ser sistêmico.

Embora pesquisas de opinião mostrassem o desejo de parte majoritária dos eleitores para o impedimento da presidente Dilma, os atores que poderiam conduzi-lo agiram para não realizá-lo. Eduardo Cunha e Renan Calheiros, apesar das intrigas e ameaças, as quais são corriqueiras na relação Executivo-Legislativo, não mostraram disposição para liderar o impeachment da presidente. E FHC, José Serra e Geraldo Alkmin não defenderam a tese do impedimento da atual presidente.

Eleitores, em particular das classes A e B, conforme mostraram as pesquisas de opinião, foram às ruas reclamar da presidente. A ausência de líderes políticos para inflamar os manifestantes e conduzir o impeachment no âmbito do Parlamento enfraqueceu as manifestações. Os sufragistas cansaram de protestar já que verificaram que as consequências dos protestos não foram efetivas.

O pessimismo do empresariado e dos eleitores para com o futuro, a deterioração de indicadores econômicos e denúncias de corrupção motivam a alta reprovação da presidente Dilma. Porém, tal reprovação não foi e certamente não será suficiente para ela sofrer impedimento. Sendo assim, qual será o futuro do governo Dilma?

Se for empiricamente verdadeiro que o ajuste fiscal, além de outras ações, como o programa de concessões, contribuirá para a recuperação da economia, prevejo que o governo Dilma Rousseff readquirirá parte da sua popularidade. Porém, tal recuperação poderá não ser pujante, em razão de dois fatores: 1) A recuperação da economia não trará de volta os exitosos indicadores socioeconômicos observados na era Lula; 2) Dilma sofre de déficit de empatia entre os eleitores. Portanto, a melhora econômica não trará, obrigatoriamente, o aumento pujante da popularidade da presidente. 


Fábrica de líderes

Adriano Oliveirasex, 29/05/2015 - 11:09

A vida é uma fábrica de líderes. Alguns surgem das oportunidades que são ofertadas desde cedo. Outros surgem ao criar as oportunidades. A vida produz líderes, porém, existem os líderes que tiveram oportunidades e os que as construíram. No Brasil estes dois tipos de líderes estão presentes.

As contradições sociais do Brasil possibilitam o desperdício de líderes. Alguns possíveis líderes não foram motivados a pensar como líderes. Outros foram vítimas da violência que atinge aleatoriamente os jovens. Alguns possíveis líderes foram domados pela cultura do não empreendedorismo. Cultura ainda existente em muitos espaços intelectuais e profissionais. 

Os líderes que criaram as oportunidades encontraram desafios. Através do esforço individual e da cultura empreendedora os superaram. Os que não conseguiram criar as oportunidades podem ter sido vítimas implacáveis das contradições sociais. O Brasil é contraditório: ao mesmo tempo em que o Brasil produz líderes, ele também permite o desperdício deles. 

Recentemente, findei a leitura do livro “Transformando sonhos em realidade” de Janguiê Diniz. A trajetória do autor impressiona. O esforço para a superação das dificuldades caracteriza a história de Janguiê Diniz. O livro de Janguiê Diniz mostra que ele criou oportunidades, embora, as contradições do Brasil tenham tentado limitá-las. 

O espírito empreendedor, a inteligência, a dedicação ao estudo e a capacidade de liderar fizeram com que as oportunidades fossem constantemente criadas e aproveitadas por Janguiê Diniz. Não considero que o destino guiou e guia Janguiê. Até porque não acredito em destino. Considero, porém, que Janguiê conseguiu criar oportunidades e superar os grandes obstáculos que se deparou. 

O estado tem fundamental importância na criação de oportunidades para os indivíduos. Alex Tocqueville, em “A democracia na América”, frisou isto. Os economistas ortodoxos e heterodoxos também reconhecem o estado como indutor e produtor de oportunidades. Mas nem sempre o Estado como criador de oportunidades está ativo. Janguiê Diniz conviveu durante o início da sua trajetória com Estados ineficientes na oferta de bens públicos, como educação. Mas ele não ficou à espera dos benefícios do Estado. Janguiê lutou e construiu oportunidades. 

O livro de Janguiê Diniz é estimulante. Lendo-o, constato que se o estado brasileiro fosse mais ativo na promoção da educação, mais líderes, semelhantes a Janguiê Diniz,  surgiriam e podem vir a surgir. O livro mostra as razões que motivam o autor a ser apaixonado pela educação: Janguiê Diniz acredita que a educação produz líderes e possibilita o desenvolvimento socioeconômico.  


Lulismo e eduardismo

Adriano Oliveirater, 19/05/2015 - 11:12

Eleitores fazem escolhas considerando incentivos emocionais. Os incentivos emocionais advêm da empatia que o eleitor sente pelo candidato. Surgem também em razão de boas lembranças que os sufragistas têm para com gestores. Eleitores sentem saudades caso o gestor bem avaliado não seja reeleito. Eleitores também podem sentir medo da oposição e optar pela continuidade do governo. 

Eleitores, em cada eleição, apresentam as suas demandas, as quais fazem parte da agenda eleitoral. Através de pesquisas qualitativas e quantitativas é possível identificar e decifrar as agendas dos eleitores. Por exemplo: na era FHC, a agenda majoritária era combate à inflação. Já na era Lula, a agenda foi crescimento econômico e inclusão social. 

No âmbito dos estados, observo que a agenda na era Jarbas foi a modernização do estado e, por consequência, melhoria dos serviços públicos e infraestrutura. Na era Eduardo, as agendas foram semelhantes às presentes na era Jarbas, além da segurança pública. 

A contemplação das agendas por parte dos governos geram lembranças positivas nos eleitores. FHC é lembrado por ter combatido a inflação. Parte dos eleitores tem boas lembranças do Lula em razão do crescimento econômico e dos programas sociais. O ex-governador Jarbas Vasconcelos incentiva boas lembranças nos eleitores. Alto porcentual de sufragistas pernambucanos consideram que Eduardo Campos foi o melhor governador da História de Pernambuco. 

Os sentimentos positivos de parte dos eleitores para com o ex-presidente Lula possibilitou a origem do lulismo no segundo mandato do então presidente. O eduardismo surgiu em razão dos sentimentos positivos dos sufragistas pernambucanos para com Eduardo Campos. Em 2010, pesquisas detectaram a forte presença do eduardismo entre os eleitores pernambucanos. E a forte presença do lulismo entre os eleitores brasileiros. 

Eduardismo e lulismo são manifestações observáveis nos ambientes político e eleitoral. Elas têm capacidade de influenciar as escolhas dos eleitores. Tais manifestações não são eternas. Por outro lado, elas podem não findar. Entretanto, elas sofrem processo de enfraquecimento. Em 2010, como já dito, o lulismo estava no auge. Em 2014, constatei o início do seu declínio. 

O lulismo influenciará fortemente e amplamente as escolhas dos sufragistas na eleição presidencial de 2018?O eduardismo influenciará fortemente e amplamente as escolhas dos sufragistas nas disputas eleitorais de 2016 e 2018? As agendas originadas em cada eleição motivam a origem de novas manifestações eleitorais caso novos atores políticos as contemplem. Quando o eduardismo e o lulismo serão substituídos por outras manifestações eleitorais?


Lula e o futuro

Adriano Oliveiraseg, 11/05/2015 - 15:16

Desde a era Collor, Luis Inácio Lula da Silva foi o presidente da República que findou o mandato com a maior taxa de aprovação popular. Pesquisa do Datafolha revelou que em outubro de 2010, Lula obtinha 83% de aprovação (Bom/ótimo). Neste mesmo ano, Lula contribuiu decisivamente para o sucesso eleitoral da então candidata a presidente Dilma Rousseff. Pesquisa do Datafolha divulgada em abril deste ano mostrou que 50% dos brasileiros consideram Lula o melhor presidente da História do Brasil. 

Turbilhão de notícias negativas é associado ao ex-presidente Lula desde 2014. A má avaliação da presidente Dilma Rousseff, as denúncias de corrupção contra o PT e o mal estar da economia são eventos que são associados à imagem do ex-presidente. Porém, Lula continua a fazer política e é considerado pelo PT, empresários e imprensa como provável candidato na próxima eleição presidencial. 

Qual é o futuro de Lula? O desgaste da imagem do PT inibe, atualmente, uma nova candidatura de Lula a presidente. A imagem do PT está fortemente associada a de Lula. Embora, pesquisa do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau realizada em Pernambuco em novembro de 2010 tenha mostrado que independente do partido de Lula, 93% dos sufragistas pernambucanos desejavam o seu retorno à presidência da República. 

Em uma nova disputa presidencial, o desgaste da marca do PT pode vir a influenciar negativamente o desempenho eleitoral do ex-presidente - Hipótese. Obviamente, que a recuperação da popularidade da presidente Dilma Rousseff e o arrefecimento das notícias de corrupção contra o PT poderão fortalecer a candidatura de Lula em 2018. 

Porém, alguns cenários precisam ser vislumbrados. Se a presidente Dilma não recuperar fortemente a popularidade, ou seja, ter, em meados de 2018, cerca de 30% de aprovação popular, certamente a nova candidatura de Lula perderá ímpeto. A reduzida popularidade da atual presidente inibe a recuperação da popularidade da marca PT. Deste modo, os desempenhos do PT e de Dilma entre os eleitores estão intricados, e ambos condicionarão a nova candidatura de Lula a presidente. 

Entretanto, considerando o sucesso do ajuste fiscal apresentado por Joaquim Levy, o controle da inflação, a retomada lenta do crescimento econômico e a eficácia dos programas sociais, prevejo a possibilidade de Dilma alcançar 2018 com cerca de 40% de aprovação. Deste modo, Lula seria o candidato do PT a presidência da República? 

Observo que não. Em 2018, parte majoritária dos eleitores estará ansiosa por novos atores e agendas. O discurso e a imagem de Lula não contemplarão as novas demandas dos sufragistas. Lula será admirado. Mas certamente, os passados bom e ruim serão associados a sua imagem. Portanto, prevejo que um novo candidato do PT surgirá em 2018.  

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Existe crise?

Adriano Oliveiraqui, 23/04/2015 - 15:01

O principal desafio das Ciências Sociais é interpretar adequadamente a conjuntura. Quando isto não ocorre, análises conduzem os leitores à constatação equivocada da realidade. Na análise conjuntural não se deve desprezar os fatos e a qualificação adequada do momento que dado país vive.

Desde FHC, as instituições brasileiras avançam. A Lei de Responsabilidade Fiscal incentivou os gestores a boas práticas de governança. Privatizações possibilitaram a diminuição dos espaços do estado e, por consequência, enfraqueceu a dinâmica clientelista presente no presidencialismo de coalizão. Na era Lula, a Ação Penal 470 permitiu que políticos fossem condenados pelo STF.

Em 2014, na era Dilma, a Operação Lava Jato é iniciada. Em razão dela, diversos empresários e políticos foram detidos. Um grande escândalo de corrupção pública envolvendo a Petrobrás veio à tona em razão das ações da Justiça Federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal. Variados órgãos de comunicação noticiam as ações advindas da Operação Lava Jato. E da cobertura midiática, diversos fatos, que requerem julgamentos de valor por parte da opinião pública, brotam.

Os escândalos de corrupção que abundam no noticiário sugerem que as instituições brasileiras avançam e que aos poucos a paralisia deixa de fazer parte delas. Governos, independentes dos que estejam no exercício do poder, sofrem com acusações. Porém, desde a curta era Itamar, nenhum presidente da República foi acusado oficialmente por crime de responsabilidade ou falta de decoro.

No âmbito econômico, a alta da inflação, neste ano, não sugere, ainda, de modo algum, que o Brasil voltará à conjuntura econômica antes do Plano Real. O pífio crescimento econômico de 2014 e, certamente, deste ano, não permite que ondas de pessimismo invadam as cabeças sábias. Relatórios econômicos de variadas instituições presumem que em 2016, caso o ajuste fiscal seja aprovado, o Brasil voltará a crescer. Os avanços sociais ocorridos desde as eras FHC e Lula podem sofrer momentânea paralisação e ínfimo retrocesso neste ano. Mas tais possibilidades não sugerem desastres.

No presidencialismo de coalizão, presidentes da República disputam a supremacia nos campos midiáticos e Legislativo com os membros do Parlamento. Tal dinâmica, costumeiramente, possibilita disputas, arengas. Porém, em dado momento, algum ator, presidente ou congressista, cede e a relação volta à normalidade, ou seja, os conflitos diminuem.

Desde junho de 2013, manifestações implodem nas ruas do Brasil. Redes sociais são arenas de disputas eleitorais. Pesquisas de opinião mostram que a presidente da República, agremiações partidárias e Parlamentos sofrem de déficit de confiança. Diante de tantos fatos, suspeita-se que o Brasil vive o caos. Mas tenho outra interpretação: o Brasil avança institucionalmente e mais eleitores exigentes e inquietos surgem.    


Dilma e o ilusionismo

Adriano Oliveiraqui, 09/04/2015 - 10:38

Analistas e estrategistas tentam interpretar eventos presentes na realidade. Da interpretação, estratégias de posicionamento surgem. A estratégia é a arte de posicionar o ator político diante de um evento que tende a lhe trazer prejuízos. Neste caso, o ator escolherá a posição que lhe trará benefícios. A estratégia é a capacidade de utilizar os meios mais adequados para obter benefícios. Ambas as definições são complementares.

Quando o analista e o estrategista desconsideram os fatos ou insistem em premissas já postas, eles se transformam em ilusionistas. Neste caso, eles não interpretam os fatos à luz do realismo. Ao contrário, eles permitem que ideologias e julgamentos de valores guiem a análise e a estratégia. Diante disto, os fatos analisados não são iluminados. Portanto, a dinâmica deles não é decifrada e caracterizada.

Um novo termo surge, neste instante, no vocabulário de variados analistas e estrategistas: renúncia branca. Tal termo faz referência a presidente Dilma Rousseff e sugere que ela abdicou do exercício do governo em razão de ter nomeado Michel Temer para exercer a função de articulador político. A renúncia branca significa também que Dilma não governa no âmbito econômico, pois Joaquim Levy é o primeiro-ministro do governo.

A renúncia branca é obra de ilusionistas. Ou seja: tal termo não encontra correspondência com a realidade. Em regimes presidencialistas, particularmente no Brasil, ministros são nomeados para exercerem a articulação política. E em momentos de fragilidade da economia, ministros da Fazenda conquistam espaços midiáticos, os quais encobrem as atividades dos presidentes.

A caracterização realista do segundo mandato do governo Dilma Rousseff requer a adoção de outros termos, quais sejam: paralisia decisória e déficit de empatia. Construo o primeiro termo considerando dois fatos criados pela presidente Dilma: 1) A demora da presidente em defender e explicar o pacote fiscal aos eleitores; 2) Lentidão em reconhecer a importância estratégica do PMDB para o seu governo.

déficit de empatia da presidente Dilma é observado entre os eleitores. A alta taxa de reprovação do seu governo e a ausência de confiança para com ela sugere que os desafios políticos e econômicos são menores diante de um desafio maior, qual seja, conquistar a empatia dos sufragistas.

Empatia é um sentimento. A empatia de um ator político entre os sufragista é observada quando ele desperta, através dos seus diversos atos, admiração. Desta, outros sentimentos nascem, como respeito, confiança e compaixão. Tais sentimentos, incluso a empatia, não estão presentes na relação entre Dilma Rousseff e o eleitor. Portanto, paralisia decisória e déficit de empatia são termos que nascem da realidade política. Outros termos são obras de ilusionistas.


Manifestações e impeachment

Adriano Oliveirater, 31/03/2015 - 10:52

Desde junho de 2013, as manifestações ocupam a agenda midiática e as redes sociais. Neste momento, após as recentes manifestações, observo processo de mudança quanto às causas e reclamações dos manifestantes. Embora, o perfil dos manifestantes, em particular na cidade de São Paulo, seja semelhante, como bem mostrou o instituto Datafolha.

As manifestações de junho de 2013 reclamavam do PT e da presidente Dilma Rousseff. As manifestações de março de 2016 também fizeram isto. As manifestações de 2013 reclamaram do aumento das passagens dos transportes públicos. Aliás, esta foi a principal causa das manifestações. Desta vez, o aumento da passagem de ônibus não faz parte da agenda dos manifestantes. Em ambas as manifestações, os participantes reclamaram dos políticos e da corrupção.

Em junho de 2013, o Movimento Passe Livre teve participação ativa nas manifestações. Compreensível, já que a principal agenda das manifestações era o aumento das passagens dos transportes públicos. Desta vez, o Movimento Passe Livre não aparece como sujeito ativo nas manifestações. As manifestações de junho possibilitaram o surgimento dos Black blocs.

Os Black blocs trouxeram atos violentos para as manifestações do Rio de Janeiro e de São Paulo, os quais passaram a ser costumeiros. Em virtude de tais atos, pesquisas de opinião mostraram que a partir do segundo semestre de 2013, decresceu fortemente o apoio dos brasileiros às manifestações.

As manifestações de março de 2016 foram organizadas, supostamente, pelos movimentos Vem Pra Rua, Brasil Livre e Quero Me Defender. Tais movimentos não defendem a intervenção militar e, segundo eles, são apartidários. Os Movimentos Brasil Livre e Vem Pra Rua defendem o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O Movimento Quero Me Defender não defende.

Se tais movimentos, aparentemente, incentivam a ocorrência das manifestações atuais, presumo que a agenda do impeachment fará parte fortemente das manifestações de abril. Tal tese é reforçada pelo seguinte dado: 59,7% dos brasileiros apoiam o impedimento da presidente Dilma Rousseff – Instituto MDA, pesquisa realizada em março de 2015.

Sendo assim, surgem as seguintes indagações: 1) As manifestações de abril terão força para incentivar o debate sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff no Congresso Nacional? 2) Se sim, PMDB e PSDB decidirão pelo impedimento ou optarão pela cooperação com o PT, no caso, não darão forte atenção a tese do impeachment? 3) Caso o debate sobre o impeachment venha à tona fortemente, ele continuará sendo aprovado por parte majoritária dos brasileiros, ou eventos, inclusive no âmbito econômico, enfraquecerão tal tese entre os eleitores?  


As manifestações são detalhes

Adriano Oliveirater, 24/03/2015 - 12:28

As manifestações são detalhes. A avaliação da administração da presidente Dilma Rousseff e as expectativas dos eleitores para com a economia são os indicadores principais. O instituto Datafolha realizou pesquisa entre os participantes das manifestações do dia 15 de março na cidade de São Paulo. A pesquisa revelou que 82% dos manifestantes votaram em Aécio Neves no segundo turno e 68% têm renda superior a cinco salários mínimos. 

Pesquisas dos Institutos Maurício de Nassau (IPMN) e Instituto MDA realizadas entre os eleitores brasileiros após as manifestações mostram que a gestão da presidente Dilma Rousseff tem índice de reprovação acima de 64% em todas as regiões do Brasil – Aprova versus Desaprova. No Nordeste, de acordo com o IPMN, região caracterizada pela força do lulismo, e onde Dilma obteve excelentes votações nas disputas presidenciais, a reprovação do seu governo é de 64%. Na região Norte, o governo de Dilma Rousseff é reprovado por 68% dos sufragistas – IPMN. 

Considerando as pesquisas do IPMN e da MDA, constato que a administração da presidente Dilma Rousseff é reprovada em todos os segmentos econômicos. Destaco, entretanto, que entre os sufragistas que possuem renda entre 2 a 5 salários mínimos, a reprovação da presidente é de 71% - IPMN. Neste segmento estão os eleitores que tiveram mobilidade social nas eras Lula e Dilma. Portanto, estes sufragistas contribuíram fortemente para o sucesso eleitoral de Dilma Rousseff nas eleições de 2010 e 2014. 

As expectativas econômicas dos eleitores se caracterizam pelo sentimento de pessimismo. De acordo com a pesquisa do Datafolha realizada entre os eleitores brasileiros após as manifestações do dia 15 de março, 60% dos sufragistas consideram que a situação econômica do Brasil irá piorar. Quando questionados sobre a inflação, a qual representa o dia a dia do eleitor, já que ele, geralmente, gasta recursos financeiros cotidianamente, 77% afirmam que ela irá aumentar. Então, o pessimismo com a inflação condiciona o pessimismo com a situação econômica do país. 

O debate em torno do perfil dos participantes das manifestações é relevante. Porém, não contribui para explicar a realidade do governo Dilma Rousseff entre os eleitores. Ao contrário dos índices de reprovação do governo Dilma e as expectativas pessimistas dos sufragistas para com a economia. As manifestações representam uma parte da crise do governo Dilma entre os sufragistas. A desaprovação do seu governo e o pessimismo dos eleitores para com a economia representam as partes mais robustas e preocupantes do todo.   


Consenso educacional

Adriano Oliveiraqua, 18/03/2015 - 20:35

Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN) em parceria com o Instituto de Pesquisa MDA constatou que as políticas educacionais criadas nos governos Lula e Dilma são aprovadas pela população brasileira. Apesar do desconhecimento de parte dos entrevistados para com elas. Entretanto, quem já ouviu falar nos programas PROUNI, FIES e PRONATEC os aprovam majoritariamente. O tamanho da aprovação sugere que os referidos programas adquiriram o status de consenso entre os brasileiros.

A pesquisa constatou que 50% dos entrevistados conhecem o PROUNI. Neste universo, 93% o aprovam, 93,6% dos entrevistados afirmam que ele contribui para o crescimento econômico do Brasil, 94% asseguram que o governo federal deve apoiá-lo cada vez mais, e 28% pretendem utilizá-lo. Portanto, os dados mostram que o PROUNI é consenso entre os brasileiros.   

O FIES é conhecido por 47% dos entrevistados. Neste universo, 91% o aprovam, 95,2% afirmam que ele contribui para o crescimento do Brasil, 94% desejam que o governo federal o apoie cada vez mais e 34% frisam que pretendem utilizá-lo. Quanto ao PRONATEC, 34% declaram conhecê-lo. Entre estes entrevistados, 93% o aprovam, 96,7% declaram que ele contribui para o crescimento econômico do Brasil e 30% pretendem utilizá-lo. Portanto, os dados apresentados sugerem que FIES e PRONATEC são, também, consensos entre os brasileiros.

Se tais políticas educacionais conquistaram o consenso na sociedade, qual é a razão delas não continuarem a existir com vigor? No universo de 47% dos entrevistados que declaram conhecer o FIES, 30% frisaram que souberam das recentes medidas do governo federal em relação a ele. A pesquisa revela que parcelas dos entrevistados sabem elencar as diversas medidas, dentre as quais: “reduziu o número de vagas do FIES”, “dificuldade para acessar o FIES” e “diminuição da verba do FIES”. 73% dos entrevistados, no universo de 30%, discordam das medidas do governo em relação ao FIES.

Portanto, os dados apresentados não só apresentam o consenso existente, mas revelam que grande parcela dos brasileiros não está propensa a admitir qualquer retrocesso no âmbito dos programas educacionais. Se parte dos brasileiros não deseja o retrocesso, observo que eles reconhecem a educação como instrumento eficiente para o crescimento econômico, a redução da desigualdade social, e, por consequência, como indutor da inclusão social.


Fatos e cenários

Adriano Oliveiraseg, 09/03/2015 - 09:47

A análise do fato requer processo de desideologização quando o analisamos. O analista que deseja criar estratégias ou construir cenários não pode exagerar nem amenizar na análise dos fatos que integram a análise da conjuntura. Pois se assim ocorrer, os cenários construídos a partir da análise, assim como as estratégias, serão equivocados. 

Quais as consequências da abertura da lista da Operação Lava Jato para o governo Dilma? A baixa popularidade de Dilma possibilitará o impedimento do seu governo? É possível Dilma recuperar popularidade? Estas são indagações que estão presentes nos atentos observadores da complexa dinâmica da política brasileira. Procurarei, a seguir, argumentar em torno das indagações apresentadas. 

1.      A lista da Operação Lava Jato não compromete fortemente o PT. E nem o PSDB. O Partido Progressista (PP) é o mais comprometido. Portanto, eleitores podem interpretar este dado, o qual corresponde à realidade, de dois modos: 1) O PT não é o único partido corrupto; 2) Todos os partidos são corruptos. Ambas as interpretações são complementares. As interpretações são plausíveis à luz do eleitor – Cenário

2.      Se as interpretações apresentadas correspondem aos sentimentos majoritários dos eleitores, observo que o Congresso Nacional está enfraquecido perante a opinião pública – Cenário. Portanto, Dilma encontrará condições propícias para lidar com o Parlamento – Cenário. Soma-se a isto, o fato de que Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos dirigentes das casas legislativas, estão presentes na lista da Operação Lava Jato. A radicalização contra o governo por parte de Cunha e Renan não é, na minha ótica, estratégia dominante, pois ela pode conduzir todos – oposição e situação – a um impasse que possibilitará mais desgaste para o Congresso e para a presidente Dilma. Portanto, em algum instante, Cunha e Renan cooperarão com o governo – Cenário

3.      As atas do Copom são unânimes em afirmar que 2016 será o ano da recuperação econômica – Cenário. Além delas, variadas consultorias também fazem a mesma afirmação. Mas a realidade econômica de 2016 depende do ajuste fiscal que o governo pretende realizar por completo em 2015. Neste sentido, segundo reportagem do Valor Econômico, 87 bilhões de Reais, do total de 111 bilhões pretendidos pelo ajuste fiscal, podem ser economizado sem o aval do Congresso Nacional. Portanto, conclui-se que parte da recuperação econômica do país depende fortemente das ações de Dilma Rousseff. 

4.      A oposição não encontrou um discurso programático para fazer oposição a presidente Dilma. Eles frisam, em particular o senador Aécio Neves, que a gestão da atual presidente tem colocado em risco as conquistas sociais e econômicas do Brasil. Ao comparar as avaliações dos três presidentes da República de 1994 até hoje, observo que a era Lula obteve o maior porcentual de aprovação popular. Portanto, parte majoritária dos eleitores reconhece que as conquistas que estão ameaçadas advêm das eras Lula e não da era FHC. Deste modo, a ausência de discurso programático da oposição favorece, em longo prazo, o aumento da popularidade de Dilma Rousseff caso ela consiga, junto com Joaquim Levy, resgatar, em parte, os indicadores socioeconômicos observados na última era Lula – Cenário.   

5.      Entretanto, não desprezo a possibilidade de intensas e volumosas manifestações contra Dilma Rousseff neste primeiro semestre. Caso elas ocorram, certamente, conquistarão atenção da mídia. Com isto, o Congresso Nacional, junto com uma oposição fortalecida, pode optar por conduzir o impedimento da presidente Dilma – Cenário. Contudo, tenho outra hipótese: as manifestações que ocorrerão serão intensas e volumosas em São Paulo, com forte participação das classes A e B. Caso isto ocorra, elas não serão suficientes, junto com outros fatores, para possibilitar o impedimento de Dilma – Cenário.