Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Conjuntura e Estratégias

Perfil:Doutor em Ciência Política. Professor da UFPE - Departamento de Ciência Política. Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE.

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As chances do governador

Adriano Oliveiradom, 05/03/2017 - 13:16

Governadores exercem sobre deputados estaduais, prefeitos e vereadores força centrípeta. Mesmo em época de crise econômica, Estados possuem poder para distribuir benefícios para diversos atores. A distribuição de benefícios é a principal característica do voto de estrutura. Portanto, governadores podem ser reeleitos na vindoura eleição estadual.

Contudo, não podemos desprezar o eleitor independente. Este existe e precisa ser identificado e monitorado através de pesquisas. O eleitor independente avalia a segurança pública, os postos de saúde e hospitais. Julga as estradas e as escolas. E cobra promessas do governante e obras de infraestrutura.

O eleitor independente não depende do voto de estrutura fortemente. Os benefícios oferecidos por deputados, prefeitos e vereadores ao eleitor têm fraco poder para conquistá-lo. Portanto, existe espaço para um candidato da oposição vencer a vindoura eleição para governador de Pernambuco. 

A eleição estadual de 2018 não tem favoritos. Além da força estrutural do governo Paulo Câmara, não desprezo o "jeito de ser" do atual governador. Com jeito simples e tímido, os quais sugerem para o eleitor que ele é "bom moço", o atual governador também pode ser ofertado ao eleitorado como gestor responsável e dedicado à causa pública em época de crises econômica e política. E com isto, gerar sentimentos positivos entre os eleitores. 

Mas o jeito de "bom moço" não pode ser, de modo algum, entendido pelo eleitor como fragilidade ou inaptidão para o exercício do comando do Executivo. Caso isto ocorra entre a maioria dos eleitores, candidatos da oposição estarão aptos a vencer a vindoura eleição estadual. Não desprezo as jogadas dos atores estratégicos. Jarbas Vasconcelos, Bruno Araújo e Mendonça Filho têm, neste instante, o poder de fortalecer ou enfraquecer as chances de sucesso eleitoral do atual governador de Pernambuco. 

Se a maioria dos eleitores adquirir sentimentos positivos para com o governador, deputados, prefeitos e vereadores devem seguir com ele. Assim como aumenta a probabilidade dos atores estratégicos citados o apoiarem. Mas se a maioria dos eleitores construírem sentimentos negativos para com o governo Paulo Câmara, todos os atores, em algum momento, pularão do barco ou não voltarão para ele. 


Eleição e segurança pública

Adriano Oliveira qui, 23/02/2017 - 20:28

Pesquisas realizadas em diversas cidades do Nordeste no ano de 2016 revelam que eleitores premiam prefeitos que agem em prol da segurança pública. Elas também mostram que os eleitores, majoritariamente, responsabilizam prefeito e governador pela insegurança. Eleitores desejam que prefeito e governador realizem ações que possibilitem sentimentos de segurança na população.

Governador e prefeito não devem se pronunciar em relação à segurança pública. Premissa falsa. Eleitores desejam ações do prefeito e do governador. Prefeitos que não falaram sobre segurança na eleição municipal erraram. Governadores que silenciam sobre o estado da segurança pública perdem a oportunidade de construir liderança política e eleitoral. Ações contra a criminalidade são demandas dos eleitores.

Na vindoura eleição para governo do Estado, segurança pública será pauta. Governadores serão cobrados. Certamente, a federalização da responsabilidade pela segurança fará parte do suposto discurso estratégico dos governadores candidatos à reeleição. A federalização é um erro. Pois os eleitores desejam adquirir sentimentos de segurança. Não desejam discutir teses sobre segurança pública.

O debate sobre teses está presente na eterna discursão sobre a responsabilidade do governo federal para com o enfrentamento à criminalidade. “A Polícia Federal tem de cuidar das fronteiras”. “O governo Federal precisa construir política de enfrentamento ao tráfico e consumo de drogas”. Estas são assertivas coerentes verbalizadas pelos governadores. Contudo, elas não convencem eleitores.

Os eleitores, como revelam as pesquisas, estão com medo dos assaltos a ônibus. Estão receosos de irem ao caixa-eletrônico. Escutam, diariamente, o número de homicídios ocorridos. Vizinhos, colegas e parentes relatam, costumeiramente, assaltos e arrastões. Existem os fatos e os boatos. Entretanto, fatos e boatos geram sentimento de insegurança.

Governadores sábios não devem ficar em silêncio quando eleitores estão reclamando com ênfase da segurança pública. O enfrentamento à violência contribui para o sucesso eleitoral de candidatos à reeleição.  


A Lava Jato acabou?

Adriano Oliveirater, 14/02/2017 - 09:06

A Lava Jato acabou? A Lava Jato não acabou, caso você considere que novas operações ocorrerão. Mas se você deseja que a Lava Jato passe o “Brasil a limpo”, desconfio que ela acabou. Nunca acreditei que a Lava Jato tivesse o poder e as condições para “passar o Brasil a limpo”, pois a diversidade de atores supostamente envolvidos com práticas ilícitas trazidas pelas delações enfraqueceria a condução da Lava Jato. A Lava Jato está enfraquecida.

Inicialmente, talvez você tenha visto apenas maças vermelhas na floresta. Ao entrar, você constatou que existiam maças de variadas cores. Não necessariamente, na floresta, estão atores que cometeram atos juridicamente ilícitos. Na floresta, estava o realismo do sistema produtivo da política, o qual não deve ser por completo condenado.

Caso a Lava Jato seguisse ou siga em frente, o sistema político implodiria ou implodirá. A implosão do sistema político não convém ao Brasil. O que convém é o aperfeiçoamento do sistema político. O impeachment de Dilma Rousseff representou o início do enfraquecimento da Lava Jato. As delações da Odebrecht representou o fortalecimento da possibilidade do fim da Lava Jato.

Após o impeachment, o competente presidente Michel Temer apresentou a sua agenda de reformas. O setor produtivo e parte da mídia entenderam o recado subliminar do presidente: “Comigo, o Brasil tem condições de superar as crises política e econômica”. A crise política, felizmente, foi superada. Em breve, a crise econômica poderá ser. Por que aceitar as ações devastadoras da Lava Jato?

Certamente, esta pergunta não é apenas minha.  Quando o ministro do STF Gilmar Mendes reclama do excesso de prisões e o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, envia recados para as instituições, a Lava Jato recebe sinais de que não adianta seguir adiante com tanta fúria. Recentemente, procuradores declararam temer pelo futuro da Lava Jato.

A Lava Jato não findará por completo. Ela deve realizar ações pontuais, em particular, contra atores não tão influentes. Diversas ações da Lava Jato serão em breve repassadas ao Ministério Público dos estados. Lentamente, a Lava Jato continuará a sofrer enfraquecimento. Obviamente, não desprezem os cisnes negros, os acasos, os quais podem revelar que a Lava Jato continua firme e forte. 


A miopia dos prefeitos

Adriano Oliveirater, 31/01/2017 - 18:28

Existem políticos que têm capacidade analítica para entender o presente e prognosticar o futuro – políticos analíticos. Existem os que são carismáticos e líderes – não analíticos. Os políticos analíticos não são míopes. Os não analíticos são. A vingança não faz parte do político analítico. O político não analítico fleta com a vingança. O político ideal é o que tem capacidade analítica, carisma, liderança e não tem a vingança como estratégia principal.

Os prefeitos eleitos em 2016 fizeram a opção de criticar o antecessor. A crítica é simples e tradicional: Os eleitos convocam a imprensa e mostram “como encontraram a prefeitura”. Ou seja: De modo transparente apresentam as condições fiscal e estrutural do município. Atitude válida. Mas desnecessária caso ela tenha como objetivo convencer o eleitor de que não farão nada ou não pode fazer mais em razão da administração anterior.

O eleitor escolhe o candidato opositor com a expectativa de que este faça mais ou faça alguma coisa pela sua cidade. Esta premissa simplista, mas bastante útil para explicar o comportamento do eleitor, sugere que o eleitor não tem como prioridade saber como o prefeito anterior deixou a prefeitura. Mas o que o prefeito eleito poderá fazer por ele e pelo município.

Diversos prefeitos partem do princípio falso de que mostrando a “real situação” da cidade conquistará a benevolência da população. Estratégia fraca. Como frisei anteriormente, o eleitor deseja solução para as demandas do município. Portanto, eleitores não são benevolentes com o gestor que não faz nada.

Os prefeitos quando “denunciam” o antecessor consideram a opinião do seu grupo político. O grupo orienta e condiciona as ações do prefeito. Mas este não sabe, infelizmente, que o grupo político quer obter benefícios emocionais. Quando o prefeito condena o ex-prefeito moralmente, o grupo político fica feliz, pois o benefício emocional tão esperado, no caso, a vingança sobre o outro, é obtida.

Prefeitos eleitos precisam ser transparentes. Divulgar desmandos e a “real situação” do município são ações meritórias. Contudo, o alcade precisa ser sábio e não agir com miopia contra o prefeito anterior, pois o inimigo de hoje pode ser o aliado da próxima eleição. E, claro, eleitores desejam soluções para as suas demandas e não desculpas.


A incerteza

Adriano Oliveiraseg, 30/05/2016 - 17:18

O inicio do governo Temer não findou a incerteza quanto ao futuro.  Isto ocorre em razão de dois fatores: 1) Operação Lava Jato; 2) Ausência de reformas. Reafirmo que a meritória Operação Lava Jato produz crise política, e, por consequência, crise econômica. A relação causal entre Lava Jato e crise política foi exposta nos recentes diálogos divulgados entre atores. Os diálogos expostos mostraram como a política é praticada em determinados ambientes.

O fim da crise política passa, necessariamente, pelo fim ou a diminuição do ritmo da Lava Jato. Diversos atores míopes acreditaram que o fim da crise estava no impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. O fim da crise está na interrupção ou no enfraquecimento da Lava Jato. Ou melhor: está na construção do “acordão”.

A diversidade de atores e agremiações partidárias envolvidas mostra que o “acordão” é uma possível solução institucional para a crise política. Esclareço que a crise política existe em razão da incerteza que os diversos atores políticos têm quanto ao futuro. Variados políticos receiam em ser alcançados pela Lava Jato. Por consequência, cobram proteção institucional ao chefe do Executivo. Se ele não oferta tal proteção ou mostra que não tem condições de ofertar, determinados políticos passam a buscar alternativas.

O pacote econômico anunciado pelo presidente interino Michel Temer é capenga. Frisar apenas que o gasto público será limitado é ação, inicialmente, acertada. Contudo, indago: Quais as reformas que o presidente Temer encaminhará ao Congresso? E quando as encaminhará?

Não existe controle de gasto público sem reformas ou aumento de tributos. A não ser que o governo Temer admita que não existe anormalidade em limitar o alcance da matriz social ou a redução do investimento estatal em infraestrutura. Se o Executivo deseja limitar o gasto público, ele deve mostrar alternativa para o aumento da receita. Limitar o gasto público sem considerar o aumento da receita é decretar a falência do Estado como sujeito necessário em alguns espaços sociais.

A posse de Michel Temer na presidência não possibilitou o fim da Lava Jato nem a diminuição do seu ritmo. Como não possibilitou a garantia de que reformas vitais serão realizadas, por exemplo, a reforma da Previdência. Portanto, não sabemos, ainda, se o futuro será melhor. Talvez o melhor futuro ainda esteja distante.


O futuro do PT

Adriano Oliveiraseg, 02/05/2016 - 08:10

Luis Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República em 2002 após três derrotas seguidas. Não existia, naquela época, a expectativa de que o lulismo viesse a existir. Aliás, estava presente na mente dos eleitores a desconfiança e a esperança. No mercado financeiro e no setor produtivo a desconfiança existia. Com o objetivo de tranquilizar estes setores, o então candidato Lula divulga a Carta aos Brasileiros.

O Partido dos Trabalhadores nasce como grife em 1989. O PT representava para parte dos eleitores a esperança de um Brasil mais justo socialmente e livre da corrupção. O Lula era o principal líder do PT. Nesta época, em razão da não existência do lulismo, não estava claro se o PT alavancava Lula ou o Lula alavancava o PT. No ano de 2006, quando Lula disputa a reeleição, identifiquei que o Lula que alavancava o PT. Pois o lulismo representava um consenso entre a maioria dos eleitores brasileiros. Ao contrário do petismo.

Na eleição de 2010, a força do lulismo ficou evidente. Na era Lula, o poder simbólico do lulismo foi construído. Lula era a esperança dos pobres. Tinha a desconfiança da classe média, mas representava para ela o instrumento mais seguro para a expansão ou manutenção do bem-estar. Nas classes mais abastardas, o Lula não agradava. Já era visível o surgimento da rejeição a ele nas classes A. O mercado e o setor financeiro chegaram a amar o Lula. Mas em 2010, inquietações eram observadas nestes setores.

Em meados de 2005, o PT e o Lula passam a conviver com denúncias de corrupção. A partir de 2013, fortes e frequentes acusações atingem ambos. A admiração dos brasileiros para com o PT e para com o Lula declina fortemente. Petismo e lulismo perdem força entre os eleitores. Contudo, até o instante, nenhum ator político e agremiação partidária conseguiram superá-los na admiração dos eleitores.

Qual é o futuro do PT? O futuro do PT está atrelado ao futuro do lulismo. Neste instante, o lulismo ainda vive, apesar de está enfraquecido. Mas poderá readquirir força. Para isto ocorrer, basta que o governo do futuro presidente Michel Temer decepcione. Mas caso não decepcione, o lulismo tem adeptos no ambiente formado por eleitores que admiram o Estado, defendem políticas sociais e têm o Lula como o melhor presidente do Brasil. Portanto, a reconstrução do petismo em curto prazo depende fortemente da recuperação do lulismo.


O voto no interior

Adriano Oliveiraqua, 09/03/2016 - 14:25

Existem diversas obras acadêmicas sobre a escolha do eleitor nas disputas presidenciais. Recentemente, obras científicas têm surgido para explicar o comportamento do eleitor nas eleições municipais, em particular, nas capitais. Os cientistas políticos Antonio Lavareda e Helcimara Telles, junto com outros autores, têm dado contribuição relevante neste âmbito. 

Como vota os eleitores em cidades do interior? Pesquisas quantitativas e qualitativas têm contribuído para o encontro da resposta para tal pergunta. E após a vindoura eleição municipal, a resposta estará em meu próximo livro. Municípios com até 200 mil eleitores são considerados por mim como cidades do interior. Nestes municípios, os mecanismos da eleição diferem fortemente dos observados nas capitais. 

Em cidades do interior, o eleitorado, tradicionalmente, está dividido em dois grupos. O grupo da situação e o grupo da oposição. Estes podem ser classificados em cores. Ou seja: a cor vermelha representa o grupo da oposição. E a cor azul, o grupo da situação. Os grupos azul e vermelho possuem um líder ou três líderes, no máximo. Mas também existe o grupo dos indiferentes, o qual não é tão nítido, pois os eleitores não pertencem aos grupos da situação e da oposição.

O líder do grupo da situação conquista e “controla” o eleitor através da oferta de empregos e distribuição de benefícios diversos, os quais têm origem no exercício do poder na prefeitura. O líder do grupo da oposição distribui benefícios variados para manter a união do grupo, pois membros podem ser cooptados pelo líder do grupo 1. Ambos os líderes utilizam de estratégias de comunicação. Mas elas são instrumentos secundários. O instrumento principal é a distribuição de benefícios. Portanto, o uso do poder econômico. A paixão dos eleitores pelos grupos, em razão de benefícios obtidos no passado, também sustentam a força dos grupos. 

O grupo indiferente é formado por eleitores que estão à procura de um líder. Este líder não faz parte da tradição política da cidade. É um outsider, é o novo. Deste modo, indago: Se um novo líder surgir no âmbito dos eleitores indiferentes e conseguir conquistar eleitores que “pularam” do grupo 1 ou 2 em razão da insatisfação ou de sentimento de mudança, ele adquire condições de vencer a disputa municipal? No interior, a lógica eleitoral aparenta ser simples. Contudo, os eleitores indiferentes são atores estratégicos.


A incerteza eleitoral

Adriano Oliveirater, 16/02/2016 - 09:29

Neste primeiro semestre, o Tribunal Superior Eleitoral deverá julgar ação do PSDB contra a chapa presidencial Dilma Rousseff e Michel Temer. Esta chapa poderá ser condenada por utilização de recursos ilícitos para o financiamento da campanha eleitoral ocorrida em 2014. Caso a condenação aconteça, ocorrerá eleição presidencial este ano. E esta eleição poderá ser simultânea a eleição para prefeito.

Qual será o comportamento do eleitor, caso ocorram eleições simultâneas para prefeito e presidente da República? Esta indagação é estratégica, pois é possível especular sobre a nacionalização das campanhas eleitorais. Ou seja: o eleitor, independente do tamanho do eleitorado municipal, escolherá o seu candidato a prefeito considerando a sua escolha para presidente da República.

Se o eleitor do município X vota em Y, ele escolherá para presidente da República, o candidato Z, em razão de que este é apoiado por Y. Ou em virtude de que Z apoia Y. Sendo assim, a simetria do voto existirá. Se a simetria do voto existir, os candidatos do PT ao cargo de prefeito serão fortemente prejudicados, pois a conjuntura nacional tende a ser caracterizada pela presença maciça de eleitores refratários aos competidores do PT nos âmbitos municipal e federal.

Porém, alerto que as eleições municipais são costumeiramente desnacionalizadas. Entretanto, tal característica é explicada pela não coincidência das eleições para presidente e prefeito. Desta vez, tal coincidência poderá ocorrer. Assim sendo, a (1) nacionalização da disputa municipal e a (2)municipalização da disputa nacional são eventos que podem acontecer.

Outro dado relevante: em razão da insatisfação com a classe política e com a gestão da presidente Dilma, eleitores poderão estar revoltados e optarem pela mudança. Se assim vier a ocorrer, eleitores votarão pela mudança nas eleições para presidente e para prefeito. Tal raciocínio revela a possibilidade já apresentada, qual seja: a nacionalização da disputa municipal.

Esclareço o raciocínio exposto: eleitores, majoritariamente, tendem a optar pela mudança no âmbito nacional. Desejam romper com a ordem estabelecida, a qual é representada pelo PT, Lula e Dilma. Tal desejo é transportado para a eleição municipal. Com isto, os eleitores também optarão por candidatos de oposição ao prefeito que deseja a reeleição.  


A eleição informal

Adriano Oliveiraqui, 21/01/2016 - 12:12

O financiamento de empresas a candidatos está proibido. Diante disto, como ocorrerá a eleição municipal de 2016? A Antropologia política brasileira decifra satisfatoriamente a dinâmica eleitoral. Destaco duas obras antropológicas. O cotidiano da política, Karina Kuschnir. E Política e eleições no sertão de Pernambuco – O povo em armas, Jorge Vilela. Ambas as obras conduzem a possíveis respostas para a indagação apresentada.

O uso da estatística para a compreensão da relação financiamento eleitoral e desempenho dos candidatos é necessário. Mas não satisfatório. Diversos estudos da Ciência Política brasileira que abordam o financiamento das campanhas eleitorais decifram apenas a ponta do iceberg. O Escândalo do Mensalão e a Operação Lava-Jato mostraram isto. O financiamento das campanhas eleitorais vai além dos dados declarados. A Antropologia política vai além, pois decifra o cotidiano da política brasileira.

As eleições no Brasil são financiadas de modo formal informal. O financiamento formal é o declarado. O informal é o não declarado, mas não necessariamente ilícito. Quando candidatos utilizam do voto de estrutura para conquistar eleitores, ele faz uso do financiamento informal. Portanto, dar ou prometer um emprego ao eleitor, financiar festas de Carnaval ou de São João, patrocinar bingos, remunerar lideranças políticas através da concessão de cargos em ambientes diversos. Estes são exemplos do financiamento informal da campanha.

Na dinâmica da campanha eleitoral, a conquista do voto requer ações além das estratégias de comunicação. Isto não significa que as estratégias de comunicação não sejam importantes. Mas, a depender do perfil do candidato ou do município, o voto de estrutura é necessário. Na disputa legislativa, diversos candidatos fazem uso, exclusivamente, do voto de estrutura.

Independente do fim do financiamento empresarial das campanhas eleitorais, o financiamento eleitoral informal continuará a existir. Entretanto, o Marketing Político tradicional realizado em médias e grandes cidades tende a sofrer perda de recurso financeiro, pois ele tem grandioso custo. Portanto, a eleição municipal deste ano requererá voto de estrutura, antecipação da campanha e estratégia. Os candidatos “sem estrutura” que desejam vencer a eleição precisarão antecipar a campanha e construir estratégia de comunicação eficiente.   


O voto de estrutura

Adriano Oliveiraqui, 14/01/2016 - 09:30

A crise econômica favorecerá o voto de estrutura na eleição municipal? Esta indagação aparenta ser esquisita e estranha. Mas não é nem uma coisa nem outra. É objetiva e realista. O voto de estrutura significa o uso de recursos econômico ou estatal para a conquista do voto do eleitor. O uso do dinheiro e a compra de material de construção e remédios representam recursos econômicos para a conquista do voto. Recurso estatal significa a utilização do recurso econômico ou a oferta de emprego no poder público.

Infelizmente, são raras as pesquisas científicas que lidam com o voto de estrutura. A escolha do eleitor não é explicada simplesmente através dos determinantes clássicos do voto, os quais estão presentes em densa literatura da Ciência Política brasileira. Na disputa municipal para o Executivo e o Legislativo, o voto de estrutura está presente. Esta minha assertiva é verdadeira, pois ela faz parte do senso comum do dia a dia de variados competidores. Além disto, em duas eleições municipais, identifiquei, através de pesquisas de opinião, a disposição do eleitor em trocar o voto por alguma coisa, por exemplo, dinheiro ou emprego.

Não tenho a resposta para o problema exposto neste artigo. Contudo, reflito sobre possíveis respostas para ele. Em razão da crise econômica, indivíduos estarão mais suscetíveis a trocar o voto por algum benefício. Neste caso, o eleitor X poderá trocar o seu voto por dinheiro, emprego ou remédio. Tal hipótese é factível, pois o indivíduo pode ter perdido o emprego e com isto não ter dinheiro, ou precisar de um novo emprego. Candidatos a prefeito ou ao Legislativo podem ofertar tais benefícios.

Outra possibilidade: a crise econômica permite que indivíduos estejam suscetíveis para trocar o voto por alguma coisa. Porém, a decepção com a classe política poderá fazer com que os eleitores não admitam a troca do voto e optem por votar em candidatos que possuem novas práticas políticas. Neste caso, o eleitor fará a sua escolha eleitoral com o objetivo de mudar/transformar a política. Se o eleitor vender o seu voto, ele fará a opção de manter a política como ela é.

Observo, que independente do espaço social que o eleitor ocupa, encontraremos na eleição vindoura os dois tipos de eleitores. Os que desejam a mudança e os que desejam a continuidade. Mas não tenho, neste instante, condições de afirmar qual será o impacto/peso do voto de estrutura na eleição municipal. Espero, contudo, que pesquisas qualitativas e quantitativas me revelem o quanto antes.